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Introdução

Vinte e seis séculos nos separam da época em que os ensinamentos budistas sugiram da ação iluminada do Buda Sakiamuni na Índia. Quinhentos grandes discípulos teve o Buda e deles sucederam-se linhagens, ensinamentos e comentários às palavras do mestre original. Se pensarmos que toda esta ação iluminada que por gerações e gerações têm preservado a essência dos ensinamentos originou-se da energia compassiva impessoal que movimenta todos os mestres, entenderemos que suas abordagens necessariamente foram distintas na forma ainda que unas na essência. Distintas na forma porque distintas são as necessidades e as linguagens culturais dos seres a serem beneficiados. Unas na essência porque brotam da mesma fonte que é a experiência da liberdade original, terreno primordial que todos os budas e bodisatvas habitam e, por isso mesmo são budas e bodisatvas.

Ao longo do tempo estas diferenças de forma se traduziram no surgimento de diferentes linhagens e tradições. Linhagens e tradições que comprovadamente mostraram-se úteis no mundo prático da roda da vida e por isto mesmo foram preservadas pelo carinho dos seres que se sentiram beneficiados. Hoje, no Ocidente, vemos estas várias linhagens presentes na mesma região onde vivemos e podemos ouvir as várias recomendações sobre as práticas que são prioritárias e como devemos nos comportar como budistas.

Tantas e variadas são estas abordagens e recomendações que permitem até mesmo alguma confusão entre os praticantes. Estas palavras iniciais têm por motivação oferecer um referencial geral que nos permita superar estas discrepâncias e incompreensões de modo que possamos entender as diferenças como riqueza e possamos aprecia-las. Um referencial que permita desenvolver a genuína aspiração de aprender e sermos capazes de girar a roda do Darma segunda cada uma delas sem ver contradições e dificuldades nesta diversidade.

Como apresentadas aqui, as várias abordagens no Budismo podem ser reconhecidas na literatura budista em geral e nos ensinamentos dos mestres e o fato de conhecê-las irá nos permitir, facilmente, identificar e compreender que classe de ensinamentos estamos ouvindo e como este ensinamento se harmoniza com os demais ensinamentos com os quais já tomamos contato e quais seus méritos fundamentais e limites.

Quando na Física estudamos o eletromagnetismo, a mecânica ou a mecânica relativística, por exemplo, na verdade estamos estudando partes da Física, abordagens específicas. Caso não tenhamos esta visão, facilmente podemos cair na ingenuidade de tomar cada parte como se fosse a Física como um todo. Do mesmo modo, dominados por uma visão estreita, podemos pensar que o Budismo se restringe apenas àquilo que nós conhecemos ou praticamos, negando a validade e utilidade das outras abordagens e também desconhecendo as limitações da abordagem a qual estamos vinculados. Por essa razão, vamos hoje estudar um referencial de harmonização para as várias formas possíveis de apresentar, explicar e praticar os ensinamentos do Buda.

Ainda que exista uma aparente divisão, há de fato uma harmonia profunda entre todas as abordagens, elas convergem umas nas outras pelo esforço dos praticantes em utilizar seus métodos e superar suas dificuldades. É possível transitar entre todas elas sem qualquer dificuldade, porque não há consistência real nessa divisão, o que vemos é apenas uma progressiva sofisticação da abordagem que vêm das necessidades mais e mais sofisticadas e profundas dos praticantes para superar suas próprias obscuridades. Isso já não ocorre, por exemplo, nas diversas disciplinas da ciência, como na Física, em que não é possível converter a Ótica Geométrica na Ótica Física, pois elas são disciplinas paralelas. Já no Budismo essa convergência de uma abordagem na outra é perfeitamente possível.

 Os ensinamentos budistas podem ser apresentados a partir de seis abordagens. A primeira delas, o bom coração, a princípio, não precisaria sequer estar conectada ao Budismo, seria uma abordagem comum a muitas tradições espirituais e filosóficas. Já as demais vão tratar, respectivamente, da purificação da motivação e das ações no mundo; da possibilidade de trazer benefício aos seres; da estabilidade e compreensão da vacuidade; da perfeição da natureza incessante e presente em todas as manifestações, e por último, como a culminância de todas as abordagens, aquela que vai tratar da ação dos Budas e Bodisatvas no mundo. Cada uma dessas abordagens, por sua vez, pode ser vista relacionada às etapas do Nobre Caminho Óctuplo, o ensinamento central dado pelo próprio Buda.


Primeira Abordagem: O Bom Coração

Primeira etapa do Nobre Caminho Óctuplo, a Motivação

Essa primeira abordagem, usada freqüentemente por Sua Santidade o Dalai Lama, na verdade, nunca vai ser abandonada, ainda que existam as outras cinco formas. O fato de haver outras abordagens significa apenas que a prática do Bom Coração se tornará cada vez mais profunda e sofisticada. É possível dizer que todo o Budismo irá tratar dessa questão, da questão de um “Bom Coração”. Inicialmente, esse Bom Coração será apresentado como um aspecto natural, sempre presente na vida cotidiana. De um modo geral, para falar de um bom coração, os mestres falam das mães, apontando para uma forma de ajuda sem expectativas de retorno. Eles falam dessa mãe ideal, daquela que acolhe, que oferece o corpo e toda sua energia para potencializar os outros seres. Dessa forma, eles nos fazem reconhecer que se nós estamos vivos é porque essa mãe, na forma de uma pessoa ou de um conjunto de pessoas, de iniciativas e energias positivas ou mesmo de uma pessoa que não é propriamente a mãe biológica, nos sustentou até aonde chegamos, ou seja, fomos efetivamente acolhidos, cuidados e, da mesma forma, continuamos a ser.

Esse mistério, essa energia positiva, essa forma sustentadora que se reflete diretamente em nossas vidas, também se manifesta de outras formas. Ela está presente nas casas construídas, nas ruas, nas escolas, em tudo o que há ao nosso redor. Todas essas formas existem porque existe uma inteligência que as providencia. Isso significa que nós nos unimos para promover coisas positivas. Existe uma energia sustentadora que produz benefícios não apenas para uma ou outra pessoa, mas para proteger e sustentar todos os indivíduos, toda a coletividade. Essencialmente, existe uma energia positiva que faz tudo funcionar. Sua Santidade o Dalai Lama diz: “Apenas porque isso se torna corriqueiro, não é notícia; a notícia surge somente quando isso falha”. Ou seja, quando isso se torna natural e alguém faz alguma coisa completamente diferente, seja de forma agressiva ou de alguma forma amoral, então isso é noticiado, ao contrário do que acontece quando essa energia positiva está naturalmente operando.

Nos meios de comunicação é muito comum encontrarmos essa imagem, a ênfase às ações desequilibradas, à desarmonia, à agressividade. Mas o fato é que isso se trata da exceção, porque a disposição de promover os seres humanos, o planeta e a sustentação da vida está sempre presente, de forma natural. E não só essa energia existe, como ela também se manifesta de forma benigna. A linguagem por meio da qual as coisas são construídas não é uma linguagem de agressão, é uma linguagem de cooperação. De acordo com esse espírito de promoção do bem comum, torna-se natural ouvir e entender o outro, dialogar, encontrar pontos em comum, encontrar uma forma de operar em conjunto. E isso pode existir não só no nível da mente, mas também no nível de coração, de energia. Assim, quando nós nos encontramos e trabalhamos juntos, entramos em acordo ou nos unimos com alguém, isso resulta efetivamente em uma grande alegria.

E por que essa alegria? É muito semelhante ao que acontece quando duas pessoas se amam – a rigidez estrutural de cada um, curiosamente, é rompida – e a alegria surge. Mesmo que possamos surgir como seres isolados, não há como nos sustentarmos dessa forma, porque nós somos seres de relação. Apesar de nos pensarmos isolados, a nossa realização se dá na relação. Nem mesmo um Lama faria sentido se não fosse dessa forma. Nós não conseguimos viver isoladamente porque nós somos pontos em uma grande rede, pontos que surgem justo para estabelecer conexões. Se nós separarmos o ponto de suas conexões, ele deixa de existir.

Por outro lado, cada ser imagina possuir uma missão, alguma coisa a fazer e esse é o próprio processo de conexão. Cada um de nós diz: “Eu sou artesão, médico, advogado”. Cada um faz alguma coisa. Na falta de um papel em algum processo de relação, surge a crise. Nós aspiramos urgentemente a que alguém diga: “Você é isso”. E assim ressurge um eixo, um propósito. Mas na verdade, o que aconteceu? O fato de sermos reconectados à rede faz com que tudo passe a fluir e se tivermos méritos isto se dará através de relações positivas.

No amor ou no encontro entre as pessoas existe como que uma vertigem, o que é muito interessante, porque nada mais parecido com a vida e a morte que o próprio amor. Quando encontramos alguém, nós nos ampliamos e ao nos ampliarmos, também morremos. Isso acontece ao mesmo tempo e os dois lados são bons porque nós estamos aprisionados em nós mesmos ao mesmo tempo em que gostaríamos de nos ampliar. Essa ampliação acontece no encontro com o outro e nisso há um pouco de morte. Existe uma pequena história que ilustra esse aspecto, ou seja, a aflição entre o desejo de ampliação e o temor pela própria morte. Na história, uma garrafa cheia de água flutua no mar e, flutuando no mar, a água presente dentro dela se debate com uma dúvida terrível: “Se o vidro se quebrar, eu me dissolvo nesse mar, desapareço!”. Mas ao mesmo tempo sabe que ao se quebrar a garrafa, ela se tornará o mar, irá se ampliar.

Esse ponto é literalmente apaixonante porque existe uma aspiração ao encontro, seja com uma pessoa, seja com uma coletividade na qual a identidade se dissolva e ao mesmo tempo se amplie. Todos nós buscamos isso. Essa é a linguagem de um Bom Coração. Enquanto seres isolados, agindo a partir de uma visão particular, nós tentamos intuitivamente preservar algo, aquilo que consideramos ser a nossa missão. Em outras palavras, tentamos preservar o que viemos oferecer ao mundo, aquilo que adoraríamos ver o mundo recebendo. É como se isso nos permitisse morrer e ao mesmo tempo nos ver na perpetuidade de uma forma mais ampla.

Essa aspiração faz surgir uma linguagem pela qual nos entendemos mutuamente. Quando nos olhamos, estamos oferecendo algo um ao outro, estamos oferecendo acolhimento, ampliação e também a dissolução. Essa é a linguagem entre os seres humanos, a linguagem do amor, do acolhimento, do carinho. Tudo segue nessa direção. As identidades sofrem pela sua condição de isolamento ainda que, paradoxalmente, tenham o ideal de ampliação e dissolução. Todos nós temos esse ideal. Se nós não tivéssemos um ideal de encontro, de amor, de bom coração, a nossa vida realmente pareceria sem sentido. Não haveria uma vida emocional, não haveria essa eletricidade operando dentro de cada um de nós.

 Todos os seres desejam a felicidade e desejam se afastar do sofrimento. Esse é o objetivo básico que surge como uma decisão mesmo em circunstâncias muito difíceis. Na proximidade da morte surge o sentimento de que alguma coisa deu errada, a sensação de que a vida poderia ter sido diferente e, assim, pode surgir a aspiração: “Agora não tem mais jeito, mas da próxima vez eu vou tratar de fazer tudo melhor, não vou cometer erros, vou encontrar uma forma de proteção ainda mais perfeita”. Mas por outro lado, também houve resultados positivos, houve bons momentos que não foram bem aproveitados. Logo, vem uma decisão: “Da próxima vez, eu vou preservar a felicidade de uma forma mais clara e decidida.”

Nesse sentido, permanece dentro de nós essa marca inconsciente, “eu busco a felicidade e busco me afastar do sofrimento”. No momento da morte, frente à dissolução e à falta de qualquer poder sobre a situação que vivemos, sentimos essa eletricidade intensa associada ao medo e às várias experiências mistas e confusas. Dessa experiência vai surgir uma objetividade, vão surgir decisões. Essencialmente, esses serão os votos que determinarão nossas tendências futuras, quer isto esteja claro ou não. Isso significa que da próxima vez em que estivermos diante da felicidade, nós a tomaremos firmemente sem vacilar. E da mesma forma acontecerá com o sofrimento, ou seja, nós vamos acionar formas de proteção e vamos tentar mantê-las e aprimorá-las da melhor forma possível. Essa é a compreensão do voto básico dos seres no mundo, o voto de buscar algo positivo por meio de coisas positivas, pela afetividade do encontro, por uma eletricidade positiva.

Além de atraídos pelas imagens positivas, nós somos ainda empurrados a fugir das situações negativas buscando situações positivas. Essa complexidade, seja de modo consciente ou inconsciente, opera dentro de todos os seres e reinos, incluindo os animais. Os seres operam dessa forma porque todos têm essa estrutura básica que aflora externamente como as múltiplas identidades e corpos de manifestação. As identidades se alegram e sofrem pelo exato fato de serem aquilo que são. Sofrem por se manifestarem de um modo particular e, por tanto, aspiram por ampliação. Nem sempre isso parecerá claro, mas um bom exemplo desse aspecto seria o nosso próprio surgimento como profissionais. Toda definição pode se tornar uma prisão, um obstáculo. Talvez por muitas vezes nós aspiremos a ser outra coisa. Seja qual for a definição, ela se torna uma restrição. O próprio casamento pode, eventualmente, ser percebido como um empobrecimento porque ao nos casarmos, abandonamos a coletividade de seres e optamos por apenas uma pessoa. Isso significa que cada definição, cada escolha tem riquezas e obstáculos em si mesma. Qualquer definição, mesmo que positiva, pode ser percebida a partir de uma dimensão de aprisionamento e é dessa experiência de limitação que surge a aspiração a nos ampliarmos, nos dissolvermos, ultrapassarmos a prisão. Toda a identidade sente essa aflição. Por outro lado, a identidade busca se autopreservar, se proteger, encontrar a felicidade através de si mesma, o que é paradoxal, insolúvel, experiência cíclica insuperável dentro da visão comum.

Essa é a forma pela qual todos os seres operam, é a paisagem mental comum a todos. Quando nós entendemos que o outro está buscando algo positivo, nós estamos operando segundo uma linguagem compreendida por todos, mesmo que não seja uma linguagem verbal. Assim, qualquer resposta em harmonia com essa paisagem será chamada de um “Bom Coração”. Mas ao falarmos em linguagem, é importante compreender que ela só se torna efetiva quando as paisagens em que os seres operam são idênticas. Na biosfera e suas redes ecológicas é a mesma coisa, nós somos uma unidade e a linguagem dessa unidade é uma linguagem amorosa, não é uma linguagem de destruição. Todos os seres operam em coletividade, em sistemas onde prevalece essa linguagem. Os pássaros, por exemplo, não vêm para destruir as árvores, mas para preservá-las. Por tanto, não tem sentido falarmos dos diferentes órgãos ou seres isolados, é necessária a compreensão da unidade. A linguagem de rede e inter-relação é muito mais sutil e poderosa pois permite ver além. Mais poderosa ainda é a linguagem que brota da visão da inseparatividade de toda a vida, da visão vajra, da visão da paisagem ilimitada que nos dissolve enquanto separatividades.

A coletividade tem um magnetismo de atração e a partir dele nós estabelecemos vínculos positivos, surgimos segundo uma linguagem positiva e reconhecemos a sua operação. Esse ponto é bastante enfatizado por Sua Santidade o Dalai Lama, pois essa é a paisagem mental na qual os relacionamentos se tornam possíveis. Se não entendermos isso, podemos aspirar a coisas que nos beneficiam, mas que são prejudiciais aos outros, à coletividade. Essa é uma linguagem que vai na contramão e é perfeitamente natural que todo o sistema reaja a esse tipo de abordagem isolando-nos. Isso ocorre naturalmente, uma vez que ao abandonarmos a linguagem da coletividade, seja de rede ou de inseparativiade, nós nos isolamos, passamos a agir de forma autocentrada.

Quando estabelecemos relações negativas, não só surgimos como um problema aos olhos dos outros seres mas tampouco encontramos a felicidade – não há como vivermos felizes de forma autocentrada e isolada. Ao buscar o isolamento, fatalmente estabeleceremos relações negativas com o ambiente. Por conseqüência, terminaremos por adoecer ao perdermos a linguagem abrangente comum a todos os seres e entrarmos num processo de autocentramento. A linguagem autocentrada já é, em si, a própria doença. Apenas a compreensão de uma linguagem, pela qual nós surgimos como pontos de uma rede permite o reequilíbrio e a recuperação da saúde, uma vez que nós usamos uma linguagem adequada a toda coletividade. Essa linguagem é a linguagem do amor e da compaixão, da boa vontade, de um Bom Coração. Portanto, se nós nos abandonarmos, morrermos enquanto uma imagem isolada para vivermos de uma forma mais ampla, isso irá garantir nossa operação harmônica e sustentada em meio à coletividade. Só então o bom coração estará sendo verdadeiramente possível e natural. Não apenas Sua Santidade o Dalai Lama, mas todos os mestres, de alguma forma, lembram a necessidade de entendermos esse ensinamento e operarmos segundo um Bom Coração. A este nível o Bom Coração é a própria manifestação da natureza ilimitada em sua forma mais livre em meio ao mundo. Ainda que pareça uma abordagem inicial, temos aqui a culminância do processo de liberação.


Segunda Abordagem: Buscando a Perfeição

Segunda, terceira e quarta etapas do Nobre Caminho Óctuplo

Textos de apoio: Dhammapada e os primeiros capítulos do Caminho do Bodisatva, de Shantideva

A segunda abordagem vai tratar dos obstáculos internos aos nossos esforços por gerar uma ação positiva. Para abordar esse aspecto, os ensinamentos vão falar sobre o carma, sobre a prisão, sobre samsara, ciclos de morte e renascimento, experiência cíclica. Os ensinamentos vão apontar o fato de que todos nós estamos perdidos de alguma maneira. Nós tomamos decisões e sequer conseguimos cumpri-las, decidimos não mais agir de forma negativa e, no entanto, todas as emoções perturbadoras brotam automaticamente, nos impulsionando a ações que sabemos impróprias.

Ao nos darmos conta de que não basta apenas a decisão de agir com um bom coração, fica claro o que seja o carma. Nós nos surpreendemos ao perceber que há uma dimensão dentro de nós operando de forma autônoma. Essa dimensão nos confunde e nos divide. Para que possamos efetivamente fazer aquilo a que nos dispomos é necessário uma natural presença e autonomia do corpo, uma energia natural, uma operação mental e uma paisagem que justifique e apóie o que será feito. Se esses quatro níveis estiverem operando, então efetivamente algo será realizado, caso contrário, nós nos sentiremos divididos, ou seja, estaremos simultaneamente com o corpo, a energia, a mente e a paisagem em lugares completamente diferentes.

Por outro lado, essa multiplicação revela complexas características internas. Nós podemos nos multiplicar de forma lúcida ou podemos ficar presos a esse processo. Essa categoria de ensinamentos é muito vasta e importante no Budismo. Ela nos conecta diretamente à psicologia budista porque ela vai tratar do cotidiano, das dores da vida. Para esses ensinamentos existem ainda várias abordagens como, por exemplo, a saúde do corpo, a saúde mental, as aflições emocionais, o reconhecimento do carma, as aspirações religiosas pela purificação do nosso coração e assim por diante. Ao olharmos cada uma dessas abordagens é necessário mantermos uma perspectiva geral que, sem tirar a importância de cada uma delas, localize-as dentro de um conjunto. É importante também lembrar que, neste ensinamento, nós estamos adotando uma perspectiva na qual não iremos falar de identidades, mas trataremos o carma de forma impessoal.

 Considerando que a nossa característica básica a liberdade, o carma seria a sua restrição. Essa é a linha que irá nos conduzir para a compreensão desses ensinamentos. A expressão da liberdade é como a liberdade do espelho que mesmo refletindo várias imagens, não é perturbado pela presença de nenhuma delas. Isso é a inseparatividade. Caso não haja essa compreensão, nós iremos nos perder como em um jogo de espelhos, no qual não se sabe se a liberdade é uma condição do carma ou se o carma surge por liberdade. No sentido budista, o carma é uma expressão da liberdade original e não a liberdade uma expressão do carma. A própria repetição das nossas ações surge por liberdade.

Vida após vida, nós estamos fazendo as mesmas coisas. Nós estamos agindo por impulsos e esses impulsos foram todos programados. Se nós observarmos, hoje nós temos impulsos que não tínhamos há 20 anos e da mesma forma, os impulsos de 20 anos atrás não estão mais presentes. Portanto, os impulsos são móveis. Por outro lado, existem impulsos de tempos longínquos que sequer foram movidos ao longo dessa vida. A partir desses impulsos nós nos confundimos, dizendo: “Eu sou isso”. Assim surge a prisão e ela nos é tão íntima que chegamos a afirmar: “Eu sou isso”. Nós tomamos as paredes da prisão como a nossa identidade. As nossas prisões vão se tornando as nossas seguranças e não só as seguranças, como as nossas próprias definições.

E como isso acontece? Nós simplesmente esquecemos da liberdade e nos transformamos na representação perfeita da nossa prisão. A descrição completa das grades que nos aprisionam pode surgir, por exemplo, na forma de um cartão de visitas contendo todas as definições pelas quais nos reconhecemos. Essas definições estabelecem e perpetuam a prisão. Nós passamos a reconhecer o mundo ao redor de forma natural, como se tudo estivesse perfeito e nada faltasse na nossa visão. Os médicos olham pelas grades de um médico; os advogados, os artistas, os engenheiros, todos olham através das grades da sua prisão. Esse reconhecimento se torna tão automático que não percebemos mais a forma como ele se dá. Nós simplesmente olhamos o mundo pelas grades e dizemos: “O mundo é assim.” Esse é o ensinamento sobre o carma.

 A partir dessas grades surge o natural impulso das seis emoções perturbadoras. Surge o orgulho, a inveja, o desejo e apego, o medo, a carência e a raiva. O carma vai se manifestar naturalmente desde a paisagem onde operam essas emoções. As ações vão surgir e se justificar a partir da paisagem. Mas o carma não só atua a partir da paisagem, como também a partir de uma inteligência que se manifesta no nível da mente, das emoções e do corpo. O corpo se posiciona, responde, atua segundo a paisagem, segundo a mente e a disposição emocional. O nosso objetivo, portanto, será produzir uma experiência de liberdade frente a qualquer um desses níveis.

Na classe de ensinamentos da segunda abordagem, nós não só vamos encontrar um estudo detalhado sobre o carma, como também várias práticas de purificação. Essas práticas existem porque mesmo tendo recebido ensinamentos muito sofisticados, eventualmente existem regiões que não foram tocadas, nas quais permanecem resíduos a serem purificados. Assim, nós vamos precisar passar por uma malha fina, localizar dentro de nós todos os elementos que devem ser ultrapassados. Se isso não for feito, nós podemos pensar que determinados aspectos foram transformados, quando na realidade eles continuam dentro de nós, nós simplesmente não os estamos vendo. Por isso a importância dessa malha fina. Ela vai nos ajudar a identificar pontos que, de outra forma, dificilmente seriam trabalhados.

É preferível que as práticas de purificação sejam feitas a partir das perspectivas e métodos mais sofisticados. De modo geral, na segunda abordagem, as práticas de purificação ainda estão ligadas a um processo pessoal, no qual nós dizemos “Eu deveria isso, eu deveria aquilo...”. No entanto, nesse nível pessoal, as práticas são menos poderosas. As práticas de maior poder estão ligadas a uma abordagem mais ampla. Por essa razão, nós vamos tratar do item da purificação na perspectiva do Prajnaparamita, ou seja, ultrapassando o nível pessoal. Com essa explicação torna-se ainda mais clara, a importância de mantermos uma visão ampla ao tratarmos das diferentes abordagens para os ensinamentos. Essa visão irá nos permitir entrar em secções específicas dos ensinamentos, protegidos das dificuldades e obstáculos que poderiam comumente surgir.


Terceira Abordagem: Compaixão

Quinta etapa do Nobre Caminho Óctuplo

Textos de apoio: O Caminho do Bodisatva, de Shantideva; o Sutra do Diamante e seus comentários

A terceira abordagem é o início de uma experiência em que o próprio ensinamento ultrapassa o nível pessoal, ao contrário das duas primeiras, nas quais o trabalho, pelo menos enquanto diagnóstico, se dava no nível da identidade. Ou seja, um “Bom Coração” é um bom coração de alguém, a “perfeição” ou a “purificação” é a purificação de alguém. Já nesse terceiro nível é descoberta uma qualidade transpessoal que será a base do ensinamento e do nosso próprio esforço. Existe uma grande diferença entre esta e as abordagens anteriores. Ela é uma abordagem mais poderosa, é uma classe de ensinamentos enfatizada por Sua Santidade o Dalai Lama e também por grandes praticantes.

Ainda assim, essa não é a abordagem que engloba todo o ensinamento. Os ensinamentos começam pela perspectiva de um “Bom Coração”, entram no estudo em que o carma e todas as dificuldades são reconhecidos, para então ser ultrapassada a pessoalidade. Essencialmente, esse é “O Caminho do Bodisatva”, de Shantideva. “O Caminho do Bodisatva” é um ensinamento em si mesmo, é uma classe de ensinamentos constantemente apresentada e incentivada por Sua Santidade o Dalai Lama. Ele promove esse ensinamento não apenas como um professor, mas como sua prática principal. Todo o Budismo vai tratar da capacidade de ação nesse nível, na forma da ação compassiva de um Bodisatva.

Esse caminho também pode incluir a abordagem pessoal que, de certa forma, é a linguagem que Shantideva usa em partes do seu ensinamento. É como se nós disséssemos “Eu deveria ser mais compassivo. Se eu fosse inteligente eu usaria esse método, entenderia que não há razão para focar a mim mesmo. Eu deveria ajudar os outros.” Nessa perspectiva há sempre um eu que “deveria” muitas coisas. E como seria possível ultrapassar a pessoalidade? Entendendo “O Caminho do Bodisatva” segundo o Sutra do Diamante. De acordo com os ensinamentos desse Sutra, a prática das qualidades positivas não precisa estar centrada em uma identidade e, aliás, ela vai atingir a sua perfeição na transcendência da identidade, quando ela for a expressão de uma liberdade mais ampla.

E como entender essa liberdade mais ampla? A partir da oitava etapa, ou seja, no momento em que nós ampliamos e sofisticamos a visão. O conceito de uma identidade é substituído pela experiência direta de uma natureza que está por detrás e além de todas as identidades. As identidades surgem e cessam, mas algo se preserva em meio a esses nascimentos e mortes. Para uma prática mais perfeita do que seja o caminho de um Bodisatva, a consciência dessa natureza é muito importante. Ao compreendermos isso, tudo se torna mais fácil, porque nós passamos a ter uma linguagem que pode expressar essa compreensão. Nós vamos poder dizer: “A minha natureza é mais ampla do que a minha identidade, tanto que eu posso expressar essa natureza através de várias identidades. Todas elas vão mudando, mas a minha natureza está sempre presente e intacta.”

Através dessa consciência, nós descobrimos que não é necessário o tempo passar para que as identidades passem. Nós nos damos conta de que, hoje mesmo, manifestamos várias identidades; somos pais, mães, profissionais, namorados, estudantes, muitas identidades ao mesmo tempo. Nós podemos nos manifestar de diferentes formas. Quando vamos ao teatro, ao cinema ou assistimos a uma novela, nós também surgimos como uma identidade através da nossa conexão com os personagens. E se é possível compreendermos um personagem virtual, porque não conseguiríamos compreender uma pessoa que está a nossa frente? Dessa forma, nós descobrimos que a nossa natureza também pode se manifestar na compreensão da identidade do outro, ou seja, nós podemos nos associar à forma como o outro está pensando e assim, podemos entendê-lo. Existe essa possibilidade de entendermos o outro não mais a partir da nossa identidade, mas através da situação em que o outro se encontra.

No cinema, em princípio, todo mundo ri ou chora na mesma hora. Por quê? Porque ainda que nós sejamos uns diferentes dos outros, todos estamos movidos pelo mesmo personagem e passamos a viver segundo a sua forma. Na medida em que o filme se apresenta, nós nos colocamos à mercê das paisagens oferecidas. Nós tendemos para um lado ou para outro de acordo com as paisagens que o diretor nos oferece e assim, sem raciocinarmos, de repente estamos torcendo pelo super-herói, desejando que ele mate todos os seus inimigos. O aspecto da paisagem é que nos constrói junto com o personagem. Ao longo do filme, somos literalmente construídos. Do mesmo modo, nós podemos nos construir como alguém que entende as pessoas a partir das circunstâncias pelas quais elas experimentam a realidade. Nós nos construímos de acordo com os processos de relação estabelecidos por elas. E como é que isso acontece? Como no cinema, ou seja, entendendo e aceitando os processos de relação vividos pelo outro, nós passamos a vivê-los também.

Seguindo esse raciocínio, fica claro que nós não poderíamos nos construir no outro se ele fosse realmente alguém separado. Por já entendermos a vacuidade, ao olharmos dentro do outro, não encontramos nada a não ser a liberdade. As definições que encontramos no outro são todas construídas, não são definições próprias. Elas mostram processos de relação, são apenas funções entre objetos e não propriamente objetos. Então, mesmo que teoricamente, nós compreendemos que não existe um grande problema em nos associarmos a qualquer paisagem e vivermos os diversos tipos de relação pelos quais o outro opera, uma vez que, entrar e sair das paisagens, é uma habilidade que usamos para poder sentir o que o outro sente.

Se ainda assim nós desconfiarmos, achando que as coisas não são bem assim, nós podemos observar, por exemplo, um jogo de xadrez. Durante o jogo, nós nos construímos como um personagem que joga, cuja paisagem mental é o tabuleiro. Quando uma terceira pessoa chega e olha o tabuleiro, ela é capaz de entender exatamente o sentido da apreensão dos jogadores. Ela pode dizer: “Cara, você está perdido!” E como isso é possível? Isso é possível porque ela vê o jogador como um processo de relação e entende o que é possível e o que não é possível dentro daquele processo. Ela entende que a dificuldade dos jogadores é real dentro daquela paisagem.

Isso nos permite compreender que é possível a nossa natureza operar segundo um processo mais sofisticado que simplesmente buscar uma ação que seja perfeita para uma identidade. É possível ultrapassar a noção de identidade e de fato olhar para os outros, reconhecendo as suas dificuldades e o seu potencial positivo. Ao fazermos isso, uma dimensão de energia é acionada. Por quê? Porque nós passamos a viver o “Bom Coração”, que é como uma eletricidade. E, num certo sentido, ao surgirmos através do outro, nós morremos, desaparecemos enquanto “sendo” nossas definições. Ao mesmo tempo, surge a experiência de ampliação na conexão com o outro. Nós somos nós mesmos e ao mesmo tempo, somos o outro.

Assim, surge a ação livre da nossa natureza. Se antes ela estava encaixotada na experiência de autocentramento, limitada a fazer apenas determinadas coisas, agora ela está muito mais ampla. Desse fato, brota uma eletricidade na forma de alegria que vai ser o combustível natural para todo esse processo. Se a alegria estiver presente, é porque a nossa natureza se expandiu, se ampliou. Esse ponto é muito interessante porque nós vamos recuperar a capacidade de amar. De forma geral, os amores convencionais apresentam problemas, mas aqui nós estamos falando de uma forma mais ampla de amor, de um amor que ultrapassa boa parte dos seus problemas.

Nessa terceira forma de abordagem dos ensinamentos do Buda existem recomendações como: “Troque a sua experiência pela experiência do ouro. Troque de lugar com ele.” Ou ainda: “Aspire tudo o que for negativo dentro do outro e transforme isso em algo positivo. Quando você inspirar, inspire as dores do outro, quando expirar, expire sabedoria, qualidades positivas.” Dessa maneira nós começamos a olhar o mundo de uma outra forma, através da qual nós naturalmente praticamos as seis perfeições como descritas no Sutra do Diamante. Se a prática da compaixão, alegria, equanimidade e amor se tornar possível, então iremos também praticar as seis perfeições de forma impessoal, como uma prática de liberdade.

A generosidade não será a generosidade de alguém, mas a expressão de uma natureza mais ampla. A moralidade vai deixar de ser a prisão a algum tipo de regra para se tornar a prática de uma liberdade natural. Também a paz surge de forma natural, impessoal, porque não é a paz de alguém e tampouco é um objetivo, o seu surgimento é espontâneo. Na presença da paz a energia se torna estável, como se os problemas, de certa forma, se dissolvessem. Quando a energia se estabiliza, surge a concentração da mente, uma vez que ela não é mais perturbada por flutuações e emergências. A mente e a energia se tornam naturalmente estáveis na ausência de perturbações. E essa estabilidade não precisa ser construída, ela é uma condição natural.

E se a mente está concentrada e a energia, estável, surge a sabedoria. Essa sabedoria é o resultado da concentração da mente num contexto no qual nós temos mobilidade, entendemos as paisagens, as identidades e a sua transcendência. Essa compreensão é a sabedoria. Na medida em que olhamos todas as coisas comuns a partir dessa paisagem mais ampla, elas passam por redefinições. As redefinições são a sabedoria, um processo mais sofisticado de purificação; o que é diferente da purificação anterior, na qual existiam as identidades. Aqui é reconhecida uma dimensão mais profunda, impessoal, a dimensão da vacuidade no surgimento de todas as coisas. A partir desse olhar é que se dá a purificação.

Os ensinamentos que falam sobre a estabilidade correspondem à sexta etapa do Nobre Caminho Óctuplo. Já a Compaixão, o foco dessa terceira abordagem, seria o quinto passo. Na visão Mahayana, ainda que essa abordagem seja o quinto passo, ela se torna a abordagem de topo, final, o que não acontece, necessariamente, em todas as linhagens. E aqui, seria importante falarmos sobre a paisagem em que a compaixão surge, uma vez que apenas a motivação adequada nem sempre é suficiente. A motivação é muito importante, mas está ainda na dependência de uma paisagem. Quando aspiramos a ultrapassar as nossas dificuldades e ajudar os outros, removendo nossos obstáculos e produzindo ações positivas, existe aí uma paisagem. Nessa paisagem, todos os seres, incluindo a nós mesmos, são vistos como estando perdidos e tendo dificuldades. Esta é a paisagem e, quando ela surge, a motivação de ajudar a estes serem em dificuldade é natural, espontânea. Sem a paisagem, a nossa motivação vai parecer artificial, ao passo que quanto mais clara for a paisagem, mais natural será a motivação.

Ao ouvirmos sobre motivação, pode surgir a sensação de que ela é algo que devemos construir, como se entre várias possibilidades, nós escolhêssemos uma motivação. E é justamente nesse contexto que a palavra motivação tem sentido e utilidade. Por outro lado, a motivação não é um processo completamente estável, porque nós podemos flutuar, falhar na motivação. E por que isso pode acontecer? Porque, sem perceber nós nos transferimos de paisagem e dessa forma, em outras paisagens, outras motivações brotarão como se fossem sabedoria natural e de natural utilidade. Nós podemos ter a motivação de produzir benefícios, mas, de repente, nós voltamos para a motivação de um jogo de xadrez ou de um jogo econômico, no qual nós nos vemos com contas a pagar, coisas para comprar. Nós nos transferimos para um outro lugar, onde temos outras coisas a fazer e assim, a paisagem da compaixão se torna apenas uma lembrança no horizonte. O segredo para uma estabilidade na motivação é permanecer continuamente dentro de uma paisagem mais ampla. Quando nós criamos uma paisagem, no seu sentido mais sofisticado, nós nos construímos como um ser específico dentro desta paisagem e em ação natural lá. A paisagem não é algo que está no horizonte ou algo que esteja ao redor, nós estamos dentro dela, nós nos construímos através dela, passamos a ter sentido como identidades só a partir dela. A partir da paisagem, nós podemos naturalmente criar uma outra identidade, mais favoráveis e menos favoráveis. Compreendendo esse processo tão sofisticado do surgimento conjunto do ambiente e da identidade, nós podemos agir de forma natural quando dentro da paisagem de sabedoria.

O controle de qualidade mais sofisticado para a nossa ação será reconhecer incessantemente o lugar onde estamos, a paisagem de sabedoria na qual surgimos. A paisagem da compaixão é muito poderosa, não importa o quê aconteça, nós devemos primeiro pensar: “Na vastidão desse universo, os seres estão atuando carmicamente, eles acreditam ser o seu próprio carma, estão fixados em suas respostas, justificam todas as suas ações. Entre esses seres, poucos ouviram os ensinamentos e sabem da irrealidade de tudo isso. Entre os seres que ouviram e que buscam ultrapassar essas paredes, o véu dessa complicação, eu me incluo, e assim, busco ultrapassar os sentidos convencionais. Essa é a minha busca e eu fiz o voto de Bodisatva para estar no mundo junto dos seres em meio às suas dores, em meio às suas histórias. Porém, eu não sou o personagem dentro disso, estou vivendo essa experiência como uma forma de treinamento, tentando reconhecer a liberdade natural dentro de tudo isso, para poder, então, ajudar a todos os seres”.

Dessa forma, quando estivermos em meio a qualquer tipo de situação complicada em que as pessoas se exaltam e se agridem, a nossa respiração estará naturalmente estável, em paz, porque nós não temos nada a defender. Nós estaremos simplesmente praticando a lucidez, livres de todas as confusões, tentando conduzir a situação da melhor forma possível. Se este for o sentido da nossa presença, mesmo que nós fiquemos calados, esta já será uma enorme tarefa. Não será preciso dizer nada. Se estivermos lúcidos, presentes, sem entrar nas disputas, já estaremos trazendo beneficio. A paisagem produz esse alívio. E mesmo que em determinadas situações nós sejamos obrigados a nos manifestar de alguma forma, o fato de estarmos ancorados nessa paisagem, já será uma grande prática. Reconhecer os seres em sofrimento, lembrar os votos, o objetivo de ultrapassar os significados e as responsividades, significa que nós estamos cumprindo nossa parte e isso já nos trará um grande alívio. Nós não vamos nos perturbar pelo fato das pessoas se comportarem mal, pois nós compreendemos que elas se comportam como é possível dentro das suas limitações. Assim, elas estão naturalmente perdoadas, nós não vamos julgar ninguém. A partir dessa perspectiva mais ampla, nossas ações vão se purificando. Dentro dessa classe de ensinamentos, Sua Santidade o Dalai Lama oferece textos e práticas de purificação e cura. Entre esses ensinamentos, está o “Caminho do Bodisatva”, assim como uma vastidão de outros textos e ensinamentos de outros autores, como Daniel Goleman, por exemplo.

Mas qual é o elemento básico que possibilita esta visão? É a liberdade natural de uma natureza mais profunda e não construída. Isso significa que nós não vamos nos construir como alguém especial e definitivo, mas apenas usufruir uma liberdade natural que está evidentemente presente. Dentro dos nossos panoramas restritos, a liberdade não é percebida. Ao contrário de liberdade, qualquer opção que esteja fora dessas paisagens que construímos e onde surgimos e nos fixamos, será percebida como uma perturbação. Se nós estivermos, por exemplo, jogando uma partida de xadrez, e alguém precisar da nossa ajuda, isso parecerá um grande incômodo, porque todos os nossos esforços estão em outra direção. Por outro lado, quando nós ampliamos a nossa visão, aquele panorama e suas ações vão parecer completamente sem sentido. Mas, quando nós estamos presos, tudo passa a ter importância extrema. É como uma pessoa com um jornal nas mãos lendo as notícias que no dia seguinte não lembrará mais. Mas se alguém a perturbar naquele momento ela pode se sentir violentada, agredida: “Você não entende que eu estou lendo o meu jornal, você não tem sensibilidade para ver isso?”

Mas o que é que nos prende a esses mundos particulares ainda que eles não tenham qualquer importância? Quando nós estamos dentro de algum tipo de processo, uma responsividade passa a operar e, porque nós a respeitamos, a nossa tendência é seguir a qualquer impulso que surgir. Caso isso não seja possível, nós nos sentimos violentados. Isso não significa que o objeto ou o impulso precisem de um significado, um sentido, isso não é necessário. Todo objeto ou evento é o que é na sua própria limitação. Mas ainda assim ele nos domina. Este é apenas um breve comentário sobre a responsividade, pois nesse momento esse não é ainda o nosso foco. Por enquanto, o nosso foco é o reconhecimento da liberdade de transitar entre as várias paisagens e identidades, essa é a nossa descoberta.

Em relação à abordagem anterior, a da perfeição, há aqui uma inversão de perspectiva, pois ao invés de tentarmos nos construir de forma positiva, nós simplesmente exerceremos uma liberdade natural de trânsito. Porque há essa liberdade de trânsito, nós nos “desconstruímos” e nos reconstruímos em qualquer ambiente. Nós passamos a confiar em uma liberdade natural sempre presente. Quando esse processo é levado a um nível de sofisticação, ele se torna a própria expressão da Iluminação. Esse processo tem dentro de si o que nós vamos chamar de onisciência, que é a capacidade de andar nos vários mundos. E o que significa isso? Significa penetrar nas diversas paisagens e experiências, entendendo os processos de relação e surgindo como um ponto dentro de quaisquer redes em qualquer dos mundos.

A nossa natureza é luminosidade e vacuidade. Ela é livre. Isso no Dzogchen é muitas vezes simbolizado por uma esfera transparente, sem bordos, flutuando no ar. Essa esfera somos nós. O reconhecimento da natureza última é que nos permite chegar em qualquer lugar e estabelecer conexões. A onisciência é a capacidade de flutuarmos em direção aos vários mundos. O Buda Shakyamuni diz: “Eu, sentado no jardim Jetavana, vejo todos os mundos com seus seres e aflições e em cada um há um Buda dando ensinamentos. Todos os mundos, Budas e seres harmonicamente se movimentam como essas plantas ao vento, dançando o som do Darma. As águas fluem e murmuram o som do Darma. Tudo manifesta o som do Darma.” Ou seja, o som da liberdade ilimitada se faz particular, constrói mundos que se inter-relacionam como uma expressão de liberdade. Entender a noção de liberdade é entender a onisciência, a Iluminação. Logo, essa terceira abordagem, que pertence ao quinto passo do Nobre Caminho, quando realmente aprofundada, conduzirá à Iluminação completa.

Quando Sua Santidade o Dalai Lama oferece a classe de ensinamentos mais sofisticados da oitava etapa, o Dzogchen, ele afirma que a sua culminância é a compaixão. Ele ensina a oitava etapa até o seu último detalhe, e ao final ele diz : “A minha prática é a compaixão”, ou seja, a sua prática é a culminância do oitavo passo do nobre caminho na forma da compaixão. Isso justifica o fato de que o quinto passo, na visão Mahayana, não é uma etapa inferior. A compaixão, na verdade, é uma expressão da perfeição. O quinto passo, quando abordado no nível de natureza ilimitada e não mais de identidade, já não vai oferecer uma linguagem provisória, mas uma linguagem que vai apenas se aperfeiçoar, terminando por manifestar os aspectos últimos, completos.

Para que o oitavo passo possa ser realmente compreendido, precisa estar dentro de um contexto, caso contrário se torna uma especialização de conhecimento sobre a natureza da mente e não propriamente a sua prática. Torna-se uma sabedoria sobre a natureza última ao invés de ser o seu exercício. Uma vez tendo a compreensão completa dessa natureza, o desafio passa a ser como exercitá-la. Esse exercício vai se dar através da culminância das qualidades do quinto passo – ação de um Buda em meio ao mundo. Por isso a importância de conhecermos as diferentes abordagens. Nós deveríamos entender a qual delas pertencem os ensinamentos e textos que encontrarmos. É muito importante ler, estudar e incorporar essa visão geral dos ensinamentos. Nós não só deveríamos incorporá-la em nossa prática, como deveríamos perceber se um determinado ensinamento irá ou não apoiar a nossa prática, porque antes de conhecermos ou praticarmos qualquer outra abordagem, é mais apropriado amadurecer na abordagem em que estamos envolvidos.


Quarta Abordagem: Vacuidade

Sexta e Sétima etapas do Nobre Caminho Óctuplo

Textos de apoio: Sutra do Coração e Sutra do Diamante (na tradução de Eduard Conze); Surangama Sutra; Lankavatara sutra; Nono Capítulo do Caminho do Bodisatva, de Shantideva; as obras todas de Nagarjuna; A Clarificação da Sabedoria Primordial, de Tsong Khapa (natradução de Robert Thurman).

Tudo o que disser respeito à vacuidade e à meditação fará parte dessa abordagem. Existem tradições específicas que vão focar sua prática e instrução quase que apenas aqui, como a tradição Zen em suas várias origens e expressões. O Zen chinês, por exemplo, começa com Bodidharma, cuja tradição olha tudo através da vacuidade, gerando paralelamente muitas artes como formas de expressar não só a vacuidade no sentido convencional, como também no sentido de luminosidade. Entre essas várias formas de expressão está a arte do chá e a Ikebana. No Budismo chinês a prática da meditação e a compreensão da vacuidade incluem a compaixão ativa em benefício às populações ao redor do mosteiro. Como por exemplo, no trabalho do templo Zulai em Cotia, São Paulo. Lá, existe a preocupação com a comunidade, a preocupação em trazer benefício aos seres, manifestar compaixão. Isso é algo realmente importante, é a fusão da quarta com a terceira abordagem, ou seja da vacuidade com a compaixão.

A quarta abordagem é uma forma de compreensão, uma linguagem, um processo muito sofisticado que irá nos permitir compreender a natureza da vacuidade expressa em todas as coisas. Porém, no contato entre Ocidente e Oriente, os ensinamentos sobre a natureza da vacuidade nem sempre foram bem compreendidos, gerando algumas confusões. Ao ouvir sobre a vacuidade, pode surgir a sensação de que esse ensinamento trata da falta de sentido das coisas, da sua insubstancialidade, da sua irrealidade. Ainda que isso, numa certa medida, seja realmente dito, essa não é a verdade última. A verdade última não é o fato de que os objetos ou eventos não têm sentido e de que as realidades convencionais são construídas arbitrariamente, mas, sim, que para poder ver o sentido mais profundo das coisas, nós devemos ultrapassar a estreiteza dos significados convencionais. Só assim teremos a capacidade de reconhecer a profundidade de todas as experiências nas quais corriqueiramente estamos envolvidos.

Existe uma secção dos ensinamentos nesta quarta abordagem, na qual realmente se afirma que as coisas convencionais não têm sentido. Porém, algumas pessoas do Ocidente, encontrando esse ensinamento, acreditaram ter compreendido a visão última. Dessa forma, associando essa compreensão equivocada às suas próprias depressões, as pessoas geraram uma visão completamente pessimista. Por essa razão, é necessário ter muita atenção, porque no Budismo não há espaço para qualquer visão negativa. Pelo contrário, nós vamos encontrar inseparável da compreensão da vacuidade a experiência de uma natureza muito sutil e luminosa. Vamos perceber que a noção de vacuidade é mais bem compreendida quando nós olhamos não a ausência de sua forma última, mas justo o fato de que as formas passam a ter forma através da luminosidade da natureza ilimitada. Esse é o mistério que nós vamos focar, ou seja, o processo misterioso pelo qual as coisas ganham sentido aos nossos olhos e mentes. Assim focamos o tema da vacuidade inseparável da luminosidade. A classe de ensinamentos que reconhece a vacuidade é representada pela literatura Mahayana Sutrayana, especialmente nas obras de Nagarjuna, esse grande mestre que pertence a várias linhagens.

Até aqui, nós vimos uma indicação geral do que seja essa abordagem, mas qual seria o seu conteúdo? Essencialmente, seria a compreensão de que os objetos em sua materialidade não têm as propriedades a eles atribuídas. Mas essa é a compreensão mínima, apenas o primeiro ponto. Avançando nessa análise, nós vamos ver que os objetos manifestam as suas propriedades através da inseparatividade com o observador. E avançando ainda um pouco mais, nós vamos reconhecer que o observador também não tem propriedades intrínsecas. Isso é chamado de “A dupla ausência de identidade intrínseca, a vacuidade do objeto e do observador. Mais adiante, a vacuidade não só será compreendida como a ausência das propriedades do objeto, do observador e a inseparatividade entre eles, mas também como a própria expressão da luminosidade. Ela será vista como um espaço ilimitado e inseparável do princípio ativo que produz todas as experiências.

Essencialmente, esse é o foco da quarta abordagem. A partir dessa compreensão, dessa experiência básica, nós vamos contemplar as várias experiências, tudo o que se referir aos órgãos dos sentidos e seus objetos, assim como, o próprio sentido abstrato da mente. Nós também vamos reconhecer a criação incessante de observadores que surgem como identidades contemplando mundos específicos inseparáveis deles mesmos. Essa contemplação é a prática do Prajnaparamita. Seguindo assim chegamos num ponto muito curioso, porque, eventualmente, nesse nível de análise, nós percebemos que os nossos sentidos são limitados. Por quê? Porque nós estamos desenraizando o automatismo de considerar absoluto um mundo que surge através dos nossos órgãos dos sentidos. Ao fazer isso, nós nos damos conta de que esse é um mundo muito restrito. Até os cientistas sabem que esse mundo é uma pálida expressão do que pode ser visto, uma vez que os nossos sentidos físicos são uma pequena expressão das várias possibilidades. Através dos olhos, nariz, ouvidos, língua e corpo nós podemos perceber apenas parte de tudo o que poderia ser visto, ouvido, sentido pelo olfato, pelo paladar ou pelo tato se estes fossem mais abrangentes. Assim, mesmo com respeito a abordagem convencional, nos vemos limitados a uma visão de mundo estreitada pela característica dos nossos órgãos dos sentidos. Ainda assim, em meio as nossas experiências o mundo convencional parece completo e nada parece estar faltando.

Quando buscamos desenraizar nossa experiência de mundo limitado, o que é que desenraizamos? Apenas isso, estamos presos a esse mundo, sustentados pela experiência dos sentidos. No entanto, é possível a mente se dar conta da vastidão onde verdadeiramente surgimos e nos movimentamos além de espaço, tempo, nome, forma e separatividade. O Prajnaparamita, o ensinamento sobre a Perfeição da Sabedoria, vai nos oferecer um roteiro para contemplação de todos esses elementos, assim como, de outras classes experiências sutis como os “doze elos da originação interdependente”. Nós vamos examinar os doze elos e ver que a vacuidade também se aplica a eles. Enfim não há verdadeira substancialidade no sofrimento, nas experiências da vida, nas experiências de surgimento e existência. E não só isso, a vacuidade se aplica aos próprios ensinamentos budistas, às Quatro Nobres Verdades, ao Nobre Caminho de Oito Passos. Nós vamos entender que os ensinamentos são provisórios, são remédios que produzem resultados e a seguir são abandonados. Eles são catalisadores de experiências de lucidez, mas eles mesmos não são a experiência de lucidez. Eles apenas nos conduzem à experiência. Da mesma forma que os catalisadores são deixados ao final das reações químicas, os ensinamentos também são abandonados quando surge a realização. Os ensinamentos do Buda apenas acionam o processo de lucidez, eles mesmos são provisórios e serão abandonados ao final.

A experiência de lucidez é a culminância da quarta abordagem. Mas nós não podemos dizer que essa experiência de lucidez seja uma experiência de sabedoria, propriamente. Na experiência de lucidez, a sabedoria é um catalisador. Quando a lucidez está presente, nós não precisamos necessariamente lembrar dos ensinamentos, dos textos. A lucidez pode se expressar através dos ensinamentos, mas ela não depende deles. A lucidez se torna a realização, o final do caminho. A culminância desse ensinamento vai ser justamente o reconhecimento de que a vacuidade enquanto ausência de propriedades não é o aspecto mais interessante. O aspecto mais interessante é a combinação da ausência de propriedades com o próprio surgimento das propriedades. Ao final dessa quarta abordagem, o ponto fundamental é percebermos como as propriedades surgem e se tornam as nossas experiências. Alguns autores consideram que o Mahayana se estende até aqui e que, da quarta para a quinta abordagem, ocorre uma transição em que o foco de atenção passa a ser a natureza original que se manifesta como luminosidade e liberdade.

Continua...

Retiro conduzido por Lama Padma Samten, no Centro Paramita em Curitiba, junho de 2003.

Transcrição e Edição: Eliane Steingruber, Josélia Rabelo e Márcia Baja

Revisado pelo Lama Padma Samten em Merigar, agosto de 2003

 

Que todos os seres possam praticar o Darma!