O Cristianismo (Catolicismo) - cont. 2

CONCÍLIOS DA IGREJA CATÓLICA ROMANA

Convocados para dirimir dúvidas sobre diversas questões teológicas, não são o único aparato legislativo da Igreja Católica. Diversos outros dispositivos, como os Sínodos, foram utilizados para questões menores, como: mudança da vestimenta dos sacerdotes (em 500), instituição do sacramento da Extrema Unção (526), a crença no purgatório (593), o jejum na sexta-feira santa e na Quaresma (998), instituição do celibato sacerdotal (1.079), confissão dos pecados ao sacerdote (1.215), o uso do Escapulário (1.251), etc..

1. Jerusalém 49-50

Assembléia dos apóstolos, conduzida por Pedro e Tiago, tratou da aplicação da lei mosaica por cristãos não-judeus.

 

2. Arles 314

Primeiro Concílio dos bispos do Ocidente realizado em agosto do ano 314 em Arles, na Gália, com a presença de representantes de 43 dioceses. Convocado por Constantino para discutir o donatismo, heresia então ascendente no norte da África.

 

3. Nicéia 325

Convocado pelo imperador Constantino à época do Papa Silvestre I, o qual não compareceu ao Concílio. Condenou a heresia ariana e promulgou o Credo de Nicéia (vide apêndice), que afirma a consubstancialidade em Jesus de Deus, Pai e Filho. Entre outras intenções visou também o banimento da mulher dos atos litúrgicos da igreja. Ela só poderia participar numa condição de subserviência. Também confirmou a separação dos Evangelhos em Canônicos e Apócrifos. Negou a necessidade do celibato para o clero.

 

4. Constantinopla 381

Convocado pelo imperador Teodósio I (347-395), o Grande. Reafirmou-se os ensinamentos do Concílio de Nicéia e definiu a doutrina do Espírito Santo, afirmando a consubstancialidade das três pessoas da Santíssima Trindade, condenando novamente o arianismo. Adotou o nome de “Igreja Católica” oficialmente.

 

5. Cartago

Nome por que ficaram conhecidos os concílios realizados na cidade africana de Cartago do século III ao século V. Os principais foram os presididos por São Cipriano (200-258) entre os anos 251 e 256 e por Santo Aurélio de 392 a 419. Em 390 afirmou que todos os clérigos que comparecessem ao altar tinham de abster-se de relações sexuais com as esposas e não ter mais filhos.

 

6. Éfeso 431

Convocado pelo Papa Celestino I, condenou o nestorianismo e reconheceu Maria como Mater Dei, a Mãe de Deus (Theotókos). Segundo alguns isso teria ocorrido no da Calcedônia.

 

7. Orange I, 441

Tratou de questões disciplinares.

 

8. Calcedônia 451

Convocado pelo Papa Leão I, condenou o monofisismo, reconhecendo a dupla natureza de Cristo. Alguns dizem que introduziu o culto a Maria Mãe de Deus, para cristianizar alguns ritos pagãos.

 

9. Orange II, 529

Refutou doutrinas heréticas, como o semipelagianismo.

 

10. Vaison, 529

Encontro realizado na cidade francesa de Vaison, que determinou, entre outros quatro cânones, que o kyrie eleison (a litania de Maria) fosse cantado nas matinas, nas missas e nas vésperas.

 

11. Constantinopla II 553

Convocado pelo imperador Justiniano (527-565), que era monofisista. Sua esposa Teodósia, que tinha mandado matar cerca de quinhentas cortesãs, ficou com medo das conseqüências da Lei do Carma e empenhou-se em abolir essa doutrina, confiante nessa “anulação divina” dos ensinamentos de Orígenes (185-254) sobre a reencarnação (ver volume 2 – Reencarnação). Justiniano depôs o Papa Silvério (536-537) colocando o Papa Virgílio (537-555) em seu lugar, decretou um edito especial sobre o assunto em 543 e convocou o Concílio. Participaram somente bispos do Oriente, nenhum de Roma, nem o Papa Virgílio, apesar dos protestos deste na sua publicação intitulada Anathemata, ficando, o Concílio, sob o comando do patriarca de Constantinopla, Eutíquio. Dessa forma foi restaurado o monofisismo, insistindo na unidade da pessoa de Cristo, e foi abolida a doutrina da reencarnação. Rejeitou novamente o nestorianismo.

 

12. Constantinopla III 680-681

Convocado pelo Papa Agatão, condenou o monotelismo.

 

13. Nicéia II 787

Convocada no pontificado de Adriano I para resolver a controvérsia Iconoclasta, definiu que estátuas, imagens, réplicas da cruz de Cristo, da crucificação, etc., devem ser reverenciadas e veneradas, mas a sua honra é relativa, elas seriam apenas representações de Cristo e dos santos para no-los trazer à memória.

 

14. Constantinopla IV 869-879

Convocado pelo Papa Adriano II, condenou o patriarca Fócio (820-893), de Constantinopla, e encerrou temporariamente o primeiro cisma oriental.

 

15. Clermont 1.095

Encontro ecumênico realizado pelo Papa Urbano II, na cidade francesa de Clermont-Ferrand, com o objetivo de promover reformas na Igreja Católica. Pregou a libertação da Terra Santa e lançou a I Cruzada, com a ajuda da Igreja Ortodoxa, contra a expansão do islamismo.

 

16. Latrão (Roma) 1.123

Convocado pelo Papa Calisto II com o objetivo de encerrar a Questão das Investiduras, a luta pelo poder, que irrompeu no final do século XI e início do XII, entre o Sacro Império Romano-Germânico, que queria manter o direito de investidura dos bispos e abades pelo imperador, e o Vaticano, que desejava reservar ao Papa, na qualidade de autoridade espiritual suprema, essa prerrogativa. Criou um índex de livros proibidos.

 

17. Latrão II 1.139

Convocado pelo Papa Inocêncio II com o objetivo de declarar obrigatório o celibato para o clero na igreja ocidental. Tornou-se inválido o casamento realizado antes da ordenação e proibiu-se o casamento após.

 

18. Latrão III 1.179

Convocado pelo Papa Alexandre III com o fim de determinar algumas leis concernentes à eleição papal.

 

19. Verona, 1.184

Convocado pelo Papa Lúcio III com o objetivo de tomar severas medidas contra os heréticos. Foram decretadas penas de banimento, confisco, demolição de casas, declaração de infâmia e perda de direitos civis. Marcou o início das atividades da Inquisição.

 

20. Latrão IV 1.215

Convocado por Inocêncio III, obrigou todos os cristãos à confissão, à comunhão e à páscoa anuais. Proibiu o casamento entre parentes até o quarto grau (antes era extensivo ao sétimo). Afirmou que Deus criou simultaneamente, no início do tempo, ambas as criaturas do nada: a espiritual e a corporal, ou seja os anjos e o mundo, e em seguida a humana, constituída de espírito e corpo. Condenou o albigensianismo e convocou a Igreja a lutar numa cruzada contra essa heresia.

 

21. Lyon I 1.245

Convocado pelo Papa Inocêncio IV, decretou a supremacia da Igreja Romana sobre as demais e depôs o imperador romano-germânico Frederico II (1.194-1.250), perseguidor da Igreja e do papado.

 

22. Lyon II 1.274

Convocado pelo Papa Gregório X com o fito de tentar uma reconciliação com Bizâncio e a Igreja Ortodoxa. Não obteve êxito.

 

23. Viena (França) 1.311-1.312

Convocado pelo Papa Clemente V com o objetivo de suprimir a ordem militar dos templários, pressionado por Filipe IV (1.268-1.314) da França, o Belo.

 

24. Constança 1.414-1.418

Pôs fim ao cisma do Ocidente com a eleição de Martinho V e condenou a doutrina hussita de Jan Hus (1.373-1.415), principal antecedente, na Europa Central, da Reforma protestante, e a de Wycleff.

 

25. Basiléia – Ferrara – Florença 1.431-1.445

Convocada pelo Papa Eugênio IV para combater a doutrina hussita e discutir a soberania papal. Decretou que o Papa teria pleno poder, dado por Cristo, para apascentar, reger e governar a Igreja Universal. Teve participação conjunta da Igreja Ortodoxa.

 

26. Latrão V 1.512-1.517

Convocado pelos papas Júlio II e Leão X, para desarmar o “anti-concílio” de Pisa, contrário aos pontífices, que culminou com a proclamação das teses da Reforma protestante. Definiu que a fé estará sempre acima da razão e decidiu como inteiramente falsas quaisquer asserções contrárias a uma verdade de fé.

 

27. Trento 1.545-1.563

Convocado por Paulo III, finalizou os decretos sobre a eucaristia e a comunhão, definiu a doutrina da transubstanciação, a confissão (os pecados teriam que ser pormenorizados quanto à sua espécie, circunstâncias e número de vezes) e a disciplina clerical e suas justificações: ”A Igreja recebeu sua doutrina de Jesus Cristo e dos seus apóstolos, e que o Espírito Santo a está constantemente assistindo, ensinando-lhe toda a verdade”.

Criou o índice de livros proibidos, e admitiu como sacra toda a Sagrada Escritura. Foram adotados dispositivos doutrinários e dogmáticos, baseados na existência de tradições não escritas que chegaram até a Igreja. Esses dispositivos, sobre a missa, o matrimônio (regulamentou o ato sexual dos casados – que não podiam conter prazer ou sensualismo, criou uma cerimônia formal obrigatória para se contrair o casamento, como forma de vigiar o casamento sacerdotal feito em sigilo, e proibiu o novo casamento de pessoas divorciadas), as ordens sagradas e indulgências, deram origem ao catecismo de Trento (1.566) e a um novo missal e breviário.

Pontos específicos, como a doutrina do purgatório, o culto aos santos, a justificação pela fé e pelas obras, e o pecado original, foram esclarecidos. Passou a denominar-se “Igreja Católica Apostólica Romana” e adotou a Vulgata latina de São Jerônimo (347-420) como oficial.

 

28. Vaticano I 1.869-1.870

Convocado pelo Papa Pio IX, condenou o ateísmo, o racionalismo, o materialismo, o naturalismo e o modernismo. Reafirmou que a fé está acima de qualquer razão afirmada pela ciência, vedando aos cristãos defender quaisquer conclusões da ciência que sejam reconhecidamente contrárias à fé e que sejam reprovadas pela Igreja, considerando-as erros revestidos de uma falsa aparência de verdade. Decretou também a infalibilidade do Papa, em questões doutrinárias.

 

29. Vaticano II 1.962-1.965

Convocado pelo Papa João XXIII como um meio de renovação espiritual da Igreja. Determinou a adoção, pela Igreja, de uma postura ecumênica (“Essa divisão contradiz abertamente à vontade de Cristo e é escândalo para o mundo, como também prejudica a santíssima causa da pregação do Evangelho a toda a criatura” – UR 1) e descentralizadora, com uma tendência pastoral. Deu mais poder aos bispos, retirando-o do Papa e descreveu a Igreja como “o povo de Deus”. Foi permitido o uso das línguas locais, promulgou decretos sobre os deveres pastorais dos bispos, o ecumenismo, as igrejas orientais, o ministério e a vida dos sacerdotes, a educação para o sacerdócio, a vida religiosa, a atividade missionária da Igreja, o apostolado dos leigos e os meios de comunicação social. Além disso, foram produzidas declarações sobre liberdade religiosa, posição da Igreja frente a religiões não cristãs e educação cristã. Esses documentos refletiram a renovação na vida da Igreja, que começou muitas décadas antes da ascensão do Papa João XXIII, em diversas áreas: bíblica, ecumênica, litúrgica, do apostolado leigo.


Coincidentemente, ou não, as principais festas cristãs são móveis e seguem também as datas das festas pagãs. Os festivais ao deus Pã eram muito populares devido às orgias, sendo celebrados nos Equinócios e Solstícios. A Igreja Romana teria sido forçada a incorporar estes rituais em sua liturgia, visto ser impossível eliminá-los e sabiamente fez deles os festivais mais importantes do culto a Nosso Senhor Jesus Cristo: a Páscoa (com Corpus Christi), o Natal (que comemora o nascimento de Jesus Cristo), o dia de “São João Batista” e o dia de “São João Apóstolo”. Em 300 já era costumeira a oração pelos mortos e o sinal da cruz.

A Páscoa é celebrada no primeiro Domingo que se segue à primeira Lua cheia após o equinócio de primavera (21 de março). Preocupada com a inconsistência da data, no Concílio de Nicéia (325 d.C.) a Igreja Católica criou as Tabelas Eclesiásticas onde fixava datas para o dia da lua cheia (a lua eclesiástica). Do domingo anterior à Páscoa, até esta, deu-se o nome de Semana Santa, e incluiu-se a celebração da Eucaristia (5a feira), a memória da morte de Jesus (6a feira) e a festa da ressurreição ou Páscoa (domingo). O Pentecostes, celebrado 50 dias após a Páscoa, comemora a vinda do Espírito Santo e o dia de cinzas é comemorado 40 dias antes do início da Semana Santa, sendo o período entre essas duas datas (cinzas e Páscoa) conhecido como Quaresma (período de reavaliação de conduta, recordando os 40 dias de jejum no deserto praticado por Jesus). O Corpus Christi ou festa do Corpo de Cristo, introduzida no século XII, celebra a presença real de Jesus na Eucaristia.

Aliás, foi Constantino que promulgou, em 321, decreto instituindo o domingo como uma festividade pública em todo o império romano, em veneração ao deus Sol. Quando da concessão de culto aos cristãos, os interesses mútuos fizeram com que os cristãos paulatinamente exaltassem o domingo como dia santo em substituição ao sábado, dia santificado judeu (Gn 2:2s, Ex 20:8-11, Is 58:13s e Mc 2:28).

Posteriormente, na época do Papa Silvestre I (314-335), a divisão dos dias da semana em ferias (comemoração em latim), ou feira em português, foi decretada. Desde os babilônios, esses dias eram nomeados em alusão aos sete corpos celestes conhecidos então: Sol, Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter, Vênus e Saturno. O Papa quis substitui-los por ferias prima, secunda, tertia, quarta, quinta, sexta e septima. A feria prima seria o dia da ressurreição de Jesus Cristo, mas o original prevaleceu tanto para o prima como para o septima, na língua portuguesa e quase todas as nações voltaram às denominações originais – ex.: Sunday, Monday, etc. no inglês; Lunes, Martes, Miércoles, Jueves e Viernes no espanhol;  Sontag no alemão, etc..

No ano 245, o teólogo Orígenes repudiava a idéia de se festejar o nascimento de Cristo “como se fosse ele um faraó”. De acordo com um almanaque romano, a festa já era celebrada em Roma no ano 336. Na parte oriental do Império Romano, comemorava-se em 6 de janeiro tanto o nascimento de Jesus quanto seu batismo. Quando o cristianismo se tornou a religião oficial de Roma (em 391), a data de 25 de dezembro passou a ser significativa, não devido a um estrito aniversário cronológico, mas sim à substituição, com motivos cristãos, das antigas festas pagãs. As alusões dos padres da igreja ao simbolismo de Cristo como sol de justiça (Mt 4:2) e luz do mundo (Jo 8:12), e as primeiras celebrações da festa na colina vaticana – onde os pagãos tributavam homenagem às divindades do Oriente – expressam o sincretismo da festividade, de acordo com as medidas de assimilação religiosa adotadas por Constantino. Então a festa de nascimento de Jesus passou a coincidir com o solstício de inverno, o dia mais curto do ano, em que o Sol vencia as trevas, celebrando o nascimento do “sol invicto” (Natalis soli invicte), ao qual a figura de Jesus foi associada. A festa do Natal foi instituída oficialmente no dia 25 de dezembro pelo bispo romano Libério, no ano 354, sob influência do Papa Júlio I (pontífice de 337-352) e de São João Crisóstomo (344-407), teólogo e patriarca de Constantinopla.

Desde então, as igrejas orientais passaram a adotar o dia 25 de dezembro para o Natal e o dia 6 de janeiro para a Epifania, manifestação de Jesus a todos os povos. No Ocidente, comemora-se nesse dia a visita dos Reis Magos. No mundo romano, a Saturnália, comemorada em 17 de dezembro, era um período de alegria e troca de presentes. O dia 25 de dezembro era tido também como o do nascimento do misterioso deus iraniano Mithra, o Sol da Virtude. Assim, o Natal, que já tinha sido comemorado em 130 datas diferentes por diversas seitas cristãs, como 20 de março e 28 de maio, passou a ser comemorado a 25 de dezembro, finalmente absorvendo o rito orgiástico ao deus Pã, que então tinha lugar na mesma data.

Adotou-se também a festa mais importante celta, o Samhain de 1o de novembro, o primeiro dia do ano celta, dando o nome de “dia de todos os Santos”. A partir de 375 já era costume a veneração dos anjos, de santos mortos e o uso de imagens e em 394 foi instituída a celebração diária da missa.

Até o século IV, as Igrejas não possuíam altares, era utilizada uma mesa no meio dos presentes para o repasto fraternal, à noite. Ao contrário do que se pensa, sentiam horror aos altares e templos pagãos, considerando-os como uma abominação. “Nós cristãos ... não possuímos templos e altares... Que imagem de Deus levantaríamos, desde que o homem é em si mesmo a imagem de Deus? Que templo poderíamos levantar à Divindade, quando o Universo, que é Sua obra, pode dificilmente contê-la? Como colocar o Onipotente em um só edifício? Não é melhor consagrarmos um templo à Divindade em nosso coração e em nosso espírito?”. Tinham presente na memória os ensinamentos de Jesus Cristo, de não rezar nas sinagogas e nos templos, como fazem os hipócritas, para serem vistos pelos homens (Mt 6:5s). Lembravam-se de São Paulo que dizia que o homem era o único templo de Deus, no qual o Espírito Santo permanecia (1 Cor 3:16s e 6-19; 2 Cor 6:16). “O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há... não habita em templos feitos por mãos humanas...” (At 17:24 e 7:48ss). O costume de adoração em templos remonta ao reinado de Deocleciano (284-304).


O Verdadeiro Rumo do Cristianismo

Seja qual for a religião do futuro, ela será a verdadeira Religião-sabedoria dos antigos. Mais alguns séculos, e não haverá mais crenças sectárias em nenhuma das grandes religiões da Humanidade. A verdadeira doutrina transmitida por Jesus Cristo, tendo como base essa Religião-sabedoria de todos os povos antigos e de todas as religiões conhecidas da humanidade, é o meio de entrarmos em contato com o reino de Deus (Lc 17:21), com o Cristo que habita em nós (Cl 1:27), nossa esperança de glória. Ela falhou quando se enredou no mundo material, na sede de expansão a todo custo e na proximidade constante com o poder secular.

Os povos antigos, e os pagãos, tinham um código religioso e um código moral. À época, o verdadeiro pecado era somente negar a existência e o poder do deus tribal ou da comunidade. A luxúria, o adultério, o assassinato, o roubo, as perversões, a apropriação indevida dos direitos e das posses alheias, etc., eram considerados ofensas à comunidade, à nação, e não ao deus. Dessa forma, o comportamento contra a moral da comunidade era punido com castigos físicos, enquanto o pecado contra o deus era punido com a morte. Acreditavam na existência da individualidade apenas na forma do corpo físico, sensível ao iníquo, ao imoral e ao pecado – aí a fonte das religiões que estimulam a autoflagelação como meio de purificação. Mais tarde, outros grandes homens afirmaram a existência de um princípio divino no homem, chamado de várias formas, mas que vamos chamar de espírito.

Mas Jesus veio lembrar a existência de um homem exterior, o corpo físico, que era constantemente tentado aos prazeres da carne (Tg 3:2), com impulsos e sensações, mortal, redutível a pó e sem importância. Também a existência de um homem interior, a individualidade, o caráter, o “eu”, a quem vamos chamar de alma, diferente do corpo físico e parcialmente ligada ao espírito, esse sim incontaminável, imortal, perfeitíssimo e divino, posto que tem origem na Consciência de Deus (“o Espírito de Deus habita em vós” (1 Cor 3:16)), morando além do pecado e da condenação – “soprado por Deus no corpo físico do homem para torná-lo uma imagem viva Dele”. Veio mostrar que todos os deveres morais do homem se consistiam num dever para com o Pai, e não somente para com a comunidade, no intuito de se formar um elo entre a alma e Deus e salvá-la, salvar ao homem interior, que Paulo mencionava como “Cristo em vós” (Cl 1:27). Aliás o mesmo Paulo, na busca desse Cristo interno era constantemente “arrebatado fora dos sentidos por Deus” (II Cor 5:13), quando ficava  “compenetrado no temor do Senhor” (II Cor 5:11), tendo chegado a um contato místico com o paraíso: “arrebatado ao 3o céu” (II Cor 12:1-4), semelhante à meditação iogue.

Ensinava secretamente, e através de suas parábolas, que era esse homem interior que cometia as violações ao verdadeiro código moral, posto que era ele quem decidia e escolhia o que o corpo físico, o homem exterior, devia fazer ante as sugestões, raciocínios e pensamentos errôneos da mente humana. Dessa forma ele se responsabilizava pelos atos e pensamentos humanos, pois já possuía um certo grau de consciência espiritual pela sua ligação com o espírito, podendo ser castigado ou recompensado em momentos futuros. Assim, nem o corpo físico mortal, sem consciência do bem e do mal, nem o espírito, que perfeitíssimo não pode cometer pecado, podem ser responsabilizados por nada. Somente o homem interior, em desenvolvimento, aquele que distingue o homem dos animais e os homens entre si, pode ser o responsável, tendo a opção de entrar no Caminho e “erguer-se em ressurreição para entrar no Reino dos Céus”. Em suma somos uma existência trina: corpo, individualidade e espírito – Mt 22:37, I Ts 5:23 e Hb 4:12 (vide Volume 2 “A Natureza Humana”).

Ensinou ainda os mistérios do Reino dos Céus, e transferiu o poder e autoridade aos seus discípulos de praticá-los (Mt 10:1, Mc 6:7-13 e Lc 9:1s) e repassá-los aos dignos (Mt 18:18 e 16:19).

O cristianismo real e primitivo era, antes de tudo, uma forma de vida ensinada por Jesus Cristo, à qual muito poucos aderiram, como ele próprio profetizou (Mt 22:14). Se a maior religião do mundo, fosse realmente vivida, em sua íntegra, a verdadeira Religião-sabedoria já teria transformado a Terra num paraíso e não no aparente inferno que vemos à nossa volta. Algumas organizações foram criadas paulatinamente, como forma de conservar e praticar esses verdadeiros ensinamentos religiosos de Jesus, como a ordem semi-monástica do Martinismo.

Mas uma luz já brilha em meio às trevas (“À época atual, a par de muitas luzes, apresenta também muitas sombras” – Tertio Millennio Adveniente 36). A tão proferida nova era, no novo milênio, já nos deixa antever o futuro provável que nos espera, nas tentativas de paz no tão sofrido Oriente Médio, entre árabes e judeus, e na mudança de conduta da Santa Igreja Católica, antes obediente à tendência de ocultar suas falhas e esconder-se atrás de aparências (veja o juramento papal em “OS PAPAS E ANTIPAPAS”, no apêndice).

Em 1.948, 147 igrejas protestantes se reuniram com o fim de criar uma organização mundial que desse “orientação e oportunidade de colaboração em assuntos comuns”. A Igreja Católica recusou ao convite na época. Hoje com cerca de 230 comunidades ortodoxas e protestantes, o Conselho Mundial de Igrejas, com sede em Genebra, conta também com observadores da Igreja Católica em suas assembléias.

Em 1.959 foi fundada a Conferência das Igrejas Européias, que agrupou Igrejas protestantes, anglicanas e ortodoxas do Ocidente e do Leste europeu, que passou a trabalhar conjuntamente com o Conselho das Conferências Episcopais Européias, entidade católica. Juntas promoveram reuniões deliberativas acerca do ecumenismo na Europa: 1.989 em Basiléia e 1.997 em Graz.

Num gesto despretensioso, senão corajoso e inesperado, em 1978 o novo Papa eleito, Karol Woityla, assume o nome de João Paulo II, nega-se a proferir o juramento papal e inicia uma grandiosa peregrinação mundial difundindo o âmago da doutrina cristã. Continuou a linha de pensamento de seu antecessor Papa João XXIII, no Concílio Vaticano II, que, na realidade, já vinha de muito antes: “As principais cisões, que durante este milênio ‘ferem a túnica inconsútil de Cristo’, são o cisma entre as Igrejas do Oriente e do Ocidente no início do milênio e, no Ocidente, quatro séculos depois, a laceração causada pelos acontecimentos comumente conhecidos com o nome de Reforma” (UR 13 – Concílio Vaticano II). Iniciou a expulsão do anticristo de dentro da Igreja.

Visitou quase todos os grandes chefes de estado, acentuando a defesa imprescindível dos direitos do homem e do trabalhador e da igualdade social no mundo, não os separando da espiritualidade. Começou a tentar, na prática, a unificação de todos os cristãos com laços fraternais, lembrando o seu objetivo único: praticar os ensinamentos de seu fundador, Jesus Cristo. Os cristãos, então, deveriam tomar para si a tarefa de levar toda a humanidade a viver os ensinamentos de Jesus Cristo, não à base da força, não tentando vencer pela intelectualidade os outros credos, mas simplesmente vivendo o cristianismo e dando o exemplo. E esse viver tem que começar na própria família cristã, católicos, protestantes e ortodoxos, perdoando-se mutuamente. “Perdoar significa esquecer tudo, apagar, e começar uma nova e virtuosa vida, ressuscitar para uma nova glória”.

Entre 1.988 e 1.999 durante encontros e sessões plenárias da Comissão Teológica Internacional (CTI), em Roma, saiu o texto “Memória e Reconciliação: A Igreja e as Culpas do Passado”, com o fito de “purificar a memória”, considerada como fator indispensável para “viver com maior intensidade a insigne graça do jubileu”. Esta purificação da memória, segundo o presidente da CTI, Cardeal J. Ratzinger, consiste no processo destinado a libertar a consciência pessoal e coletiva de todas as formas de ressentimento ou violência que a herança de culpas do passado possa haver deixado, reconhecendo as culpas e abrindo um caminho real à reconciliação. “Um ato de coragem e humildade para reconhecer as faltas cometidas por quantos tiveram e têm o nome de cristãos. Por causa daquele vínculo que nos une uns aos outros no corpo místico, todos nós, não tendo embora responsabilidade pessoal por isso e sem nos substituirmos ao juízo de Deus (o único que conhece os corações), carregamos o peso dos erros e culpas dos que nos precederam”.

“Como sucessor de Pedro, peço que... a Igreja... se ajoelhe diante de Deus e implore o perdão para os pecados passados e presentes dos seus filhos. Façam-no sem nada pedir em troca, animados apenas pelo amor de Deus, que foi derramado em nossos corações” (Rm 5:5).

João Paulo II

Segundo a mesma Comissão, em seu documento de 16 de março de 1.998, intitulado “Noi ricordiamo: una riflessione sulla Shoah”, chama aos judeus de “nossos irmãos mais velhos” e interroga “se a perseguição do nazismo, nos confrontos com os judeus, não foi facilitada por preconceitos anti-judaicos presentes nas mentes e corações de alguns cristãos...”, e finaliza com “um apelo à consciência de todos os cristãos, hoje, exigindo um ato de arrependimento”.

E quanto àqueles que negam a Deus, de múltiplas maneiras teóricas ou práticas, processo surgido no mundo Ocidental, a CTI cita, em seu documento sobre a reconciliação, palavras escritas na “Gaudium et spes”: “Com efeito, o ateísmo considerado no seu conjunto... resulta de várias causas, entre as quais se consta também a reação crítica contra as religiões e, em alguns países, principalmente contra a religião cristã”.

Mas a obra é grandiosa, pois todos os credos também adoram ao mesmo Deus, e todos somos “da mesma casta, a casta da humanidade”. Em 27 de outubro de 1.986, na basílica de São Francisco em Assis, João Paulo II presidiu um encontro histórico, por ocasião da primeira cúpula inter-religiosa, durante a qual as relações com as religiões não-cristãs foram aproximadas. Foi acusado de herege pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre pela iniciativa. Voltou à cidade em 1.993, com representantes do mundo ortodoxo e islâmico para rezar em favor da paz nos Balcãs. Em 6 de maio de 2.001 o Papa João Paulo II faz a primeira visita oficial de um Papa a uma mesquita muçulmana, em Damasco, na Síria. Pregando a igualdade dos dois credos na adoração ao Deus único ele exortou a mútua compreensão entre os seguidores de ambas as fés.

Em 24 de janeiro de 2.002 o Papa voltou a presidir duas cerimônias em Assis, pela paz do mundo, repudiando o terrorismo e a guerra. Participaram cerca de 200 religiões, incluindo líderes das onze maiores religiões do mundo: 20 patriarcas ortodoxos, uma dezena de rabinos judeus, cerca de 30 muftis, xeques e personalidades islâmicas, 20 representantes dos cristãos não católicos do Ocidente, monges budistas e xintoístas, representantes hindus, de religiões tradicionais africanas e dos seguidores de Zoroastro.

“Nunca mais a violência, nunca mais a guerra, nunca mais o terrorismo, que toda a religião leve em nome de Deus a justiça e a paz, o perdão, a vida e o amor à Terra”... “a jornada de oração pela paz, em Assis, não quer gerar o sincretismo religioso. O que une os participantes é a certeza de que a paz é um dom de Deus”.

João Paulo II

 Grandiosa obra, já que os mais sábios filósofos e mestres hindus admitem hoje os ensinamentos de Jesus Cristo e O vêem como um grande Ser, a própria encarnação do Amor. Toda a humanidade, com seus milhares de credos, e principalmente o catolicismo, o protestantismo, os ortodoxos, os judeus, os hindus e quem mais quiser se unir, partiremos, finalmente unidos no Cristo, para construir uma nova humanidade, ressuscitada das trevas para a Luz.

Pois: “A Verdade não se impõe de outro modo senão pela sua própria força, que penetra nos espíritos de modo ao mesmo tempo suave e forte” (Dignitatis Humanae 1).

Categoria: Órion Volume 1

Ítens Relacionados

Temos 93 visitantes e Nenhum membro online

Informações do Portal

Visitantes
819
Artigos
1368
Weblinks
27
Ver quantos acessos teve os artigos
9831315