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A Meditação Analítica

“Analise e investigue o benefício de uma atitude mental positiva e o sofrimento ou desvantagem de uma atitude negativa. É isso que chamamos de meditação analítica. A meditação analítica é mais poderosa que a direcionada [a outro alvo]”  28:109.

XIV Dalai Lama

 

Essa filosofia, está presente em todas as tradições na forma de se observar o que está acontecendo conosco e procurar um sentido. O que fiz para estar acontecendo isso comigo? Dessa forma ensina a aplicação prática do fato de que colhemos aquilo que semeamos: a arte da ação correta, presente na Quarta nobre verdade de Buda: o seu caminho óctuplo (Cf. em BUDISMO, no Volume 1). Denota o sentido de se buscar substituir maus hábitos por bons hábitos, substituir, conscientemente, ações não-virtuosas por ações virtuosas.

Ramana Maharshi (1.879-1.950) usava uma técnica meditativa que consistia na simples pergunta, feita a si mesmo: quem sou? Essa técnica coincide com o diagrama de meditação ensinado por Helena Blavatsky a seus discípulos mais próximos. A consideração contínua dessa pergunta, gradualmente, nos leva à libertação de tudo o que não seja o verdadeiro “eu”. Essa é uma forma de meditação analítica.

A meditação analítica é a forma de meditação em que a concentração é posta na análise de problemas específicos, solúveis ou não somente com a razão. É o Caminho da Sabedoria da Yoga (Jnana-yoga), o caminho percorrido por todos os Doutores da Igreja Católica e pelo Pathwork divulgado por Eva Broch Pierrakos (1.915-1.979). O Pathwork é um caminho imprescindível como auxiliar no autoconhecimento. Ele busca o entendimento, através da análise meditativa, das causas ocultas daqueles nossos maus hábitos que teimam em se repetir. É o mesmo caminho da psicoterapia pessoal.

A Igreja Católica também tem em seus costumes o incentivo ao ato de se auto-analisar os hábitos, atos e pensamentos. O ato de contrição, presente na missa, e a preparação para o Sacramento da Confissão são exemplos disso: faz-se um auto-exame, semanal ou mensal, com vistas a se identificar os maus hábitos, identificar os mecanismos que nos levam a realizá-los para, conscientemente, gerar-se um arrependimento tal que se tenha vontade de se desculpar, manifestando a outrem a própria falta. Não é o que se faz nos consultórios dos psicoterapeutas?

Santo Inácio de Loyola (1.491-1.556) criou os “Exercícios Espirituais”, uma forma de retiro com duração de quatro semanas, onde uma intensa atividade pessoal, que tem como autor principal o Espírito Santo presente em cada um de nós (nosso “Eu superior”), leva o praticante a uma catarse interna progressiva de encontro com o “Deus Vivo”. Através de uma cooperação pessoal (do “eu inferior), no sentido de não pôr obstáculos à atuação do Espírito Santo (“Eu superior”), ocorre a morte do “eu egoísta”, com suas afeições desordenadas (conscientes e inconscientes) 56:10.

Um desses exercícios ensina a orar fazendo uma auto-análise a partir dos Dez Mandamentos, dos sete pecados capitais, do uso que fazemos de nossa inteligência, memória e vontade (as três potências) e de nossos cinco sentidos. Ele recomenda que se detenha, em cada tópico, o tempo necessário para se rezar três vezes o Pai-nosso e três vezes a Ave-Maria, procurando as faltas cometidas, pedindo perdão e, por fim, rezando um Pai-nosso 56:96.

Já Madre Teresa de Calcutá (1.910-1.997) dizia: “toda noite, antes de ir para a cama, você deve fazer um exame de consciência (porque você não sabe se estará vivo na manhã seguinte!). Seja o que for que lhe esteja incomodando, que você tenha feito errado, você deve reparar isto”  12:83. Ela enfatiza a necessidade do arrependimento e da reparação do que as nossas faltas possam ter ocasionado. Depois, como diz Paramahansa Yogananda, não se pensa mais nisso, pois já faz parte do passado. Assim já se anulariam os “efeitos das causas” (Lei do Karma).

Santa Faustina Kowalska (1.905-1.938) afirmava que esse auto-exame deveria ser feito diariamente, durante as orações. Ao se fitar a imagem de Jesus Misericordioso se deveria fazer um exame de consciência sobre o cumprimento das exigências Dele, feitas em suas visões, de se realizar ao menos um ato de misericórdia por dia 31:14. Mas o auto-exame que desfaz definitivamente nossos maus hábitos não pode ser superficial e se limitar a nos arrependermos pelos nossos erros e esquecimentos. Ele deve ir fundo, e investigar as causas ocultas à nossa mente consciente que nos fizeram executá-los pela primeira vez, geralmente em nossa infância.

"Pratique a introspecção para compreender a natureza de sua falha, suas causas e efeitos; depois não pense mais no assunto..."  59:38.

Paramahansa Yogananda (1.893-1.952)

É somente quando aquietamos os nossos sentidos físicos e observamos o nosso interior, que percebemos esses mecanismos internos inconscientes. Essa é a função primeira da meditação analítica: desfazer nossos mecanismos internos equivocados, adquiridos e transformados em hábitos. E à medida que são desvendados e entendidos, menos mecanismos nos vêm à mente durante a meditação.

A linhagem Nyingma do budismo tibetano recomenda um exercício inicial em meditação analítica que consiste em contar os pensamentos que surgem, durante uma hora, anotando-os e separando-os em positivos, neutros ou negativos, todos os dias durante uma semana 96:74. Em seguida se escolhe um, ao acaso, e procura-se retê-lo pelo maior tempo possível, pensando-o e evitando que surja um segundo pensamento. Evita-se julgá-lo mas observa-se quanto tempo se consegue reter um pensamento. Repete-se esse exercício quatro a cinco vezes por dia. E então se pergunta: quem está observando ou reconhecendo os pensamentos, conceitos e sentimentos? Qual a relação dele com os pensamentos, como trabalham juntos?

Outra forma de meditação analítica põe em foco a análise de certas perguntas existenciais: quem eu sou? De onde vim? Para que vivo? Para onde vou após minha morte? O que é real? A Teosofia, ou Sabedoria Divina (Theos + Sophia), de Helena Blavatsky, é uma forma de Jnana-yoga que traz uma integração entre todas as disciplinas filosóficas e religiosas. Um estudo meditativo, e intelectual, que visa, entre outras coisas, ao conhecimento da existência de várias realidades no nosso Universo, e de que não somos o nosso corpo físico, mas que ele faz parte daquilo que realmente somos. Mas não adianta apenas conhecer intelectualmente a Verdade revelada, e repeti-la aos outros (como os doutores da lei, criticados por Krishna, Buddha e Cristo – veja no Volume 1), pois só quando, em meditação, sentirmos em cada uma de nossas células a Verdade, é que estaremos libertos da ilusão do mundo físico com sua Maya (termo hindu para ilusão) ou Makyo, para os japoneses.

Na realidade a Verdade só é percebida quando se transcende o mecanismo lógico e racional do pensamento. Inicia-se com um mecanismo lógico, se continua com um mecanismo abstrato até que se transcenda o pensamento. A escola Rinzai Zen, do Zen-Budismo, utiliza koans (enigmas indecifráveis) como forma de fazer com que o aspirante transcenda a lógica e o raciocínio, parando o processo de pensamento e preparando a mente para sentir a verdadeira realidade que liberta. Já na escola Soto Zen apenas se senta e se deixa “as coisas acontecerem” (a meditação no Vazio, descrita adiante).

Mas, além de demonstrar a incompetência do raciocínio lógico para tratar de sua resolução, os koans demonstram as aparentes contradições da existência. Não exclusivos do budismo japonês, os koans podem ser vistos em todas as tradições e até na física quântica. Contradição aparente porque a sua resolução sempre leva à reconciliação, do dualismo ao monismo. É a arte de se comunicar algo sem ser intelectualmente compreendido, justamente porque não pode ser apreendido intelectualmente. Angustiante contradição, os koans nos mostram o absurdo da existência e geralmente são deixados de lado em favor da busca do silêncio do pensamento, que é muito mais reconfortante. Mas uma vez resolvido o primeiro torna-se capaz de resolver qualquer um.

O Novo Testamento é pródigo em koans: “Ora, Deus não é o Deus dos mortos, mas dos vivos” (Mt 22:32; Mc 12:27; Lc 20:38), “Segue-me e deixa os mortos sepultar seus mortos” (Mt 8:22), “Quem achar a sua vida perdê-la-á” (Mt 10:39), ou quando Jesus pega o pão e diz “esse é o meu corpo”. O jesuíta William Johnston, em seu livro “Cristianismo Zen”, sugere a palavra “Deus”, ou “Jesus”, como koan, assim como o Zen utiliza a palavra “Mu" (Vazio ou Nada) com a mesma finalidade. Ou até, quem sabe, a pergunta: “que é que você entende quando faz o sinal da cruz?”.

É somente quando se experimenta a angustiante contradição de um Koan, quando se identifica com ele, vivenciando-o, percebendo as contradições da existência, é que se pode superar a dispersão do dualismo e alcançar a Verdade da unidade da vida: a libertação e a iluminação.

“E conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará”.

Jesus, o Cristo (Jo 8:32)

A Meditação na Ação

[Neegar Dashtan], atenção, é estar constantemente alerta para pessoas, lugares, músicas e outras coisas que tenham uma energia positiva 1:127.

Omar Ali-Shah

 

Muitos meditam em seu cotidiano, mas não sabem que o fazem. Por exemplo, o jogador de futebol, concentrado na cobrança de um pênalti, ou um goleiro na mesma situação, que naquele momento, indiferentes a todo o barulho externo das torcidas e à provocação dos adversários, conseguem sucesso, ou em fazer o gol ou em defender o chute, estão na verdade em estado meditativo. Em geral, nesse momento, eles estão com a mente vazia, não estão pensando em nada.

Pesquisas realizadas na Universidade de Chicago pelo neurologista John Milton e na Universidade do Estado do Arizona pelo neurologista Debbie Crews, utilizando exames de ressonância magnética nuclear em jogadores de golfe profissional, demonstraram baixa atividade cerebral global, principalmente naquelas áreas que controlam o pensamento consciente, no momento da tacada. O mesmo não ocorria nos jogadores amadores, onde permanecia uma intensa atividade cerebral.

Diversas práticas meditativas são recomendadas como forma de se manter meditando durante qualquer ação desempenhada no cotidiano. Como meditar, na realidade, é uma forma de se viver no presente, fugindo dos pensamentos e emoções passadas e futuras, qualquer ação feita com total concentração e consciência é uma ação que leva a um estado meditativo. Meditar, como já foi dito, é estar alerta, atento a tudo o que ocorre no “aqui e agora”.

O mestre zen coreano Thich Nhat Hanh defende amplamente esse tipo de exercício meditativo em todas as atividades diárias, inclusive durante o caminhar. Acompanhar cada passo dado numa caminhada, sincronizando-o com a respiração, mantendo a mente concentrada nesse foco é um dos exercícios meditativos recomendados por ele. As artes marciais, também, são exercícios de aumento da percepção e de treinamento da plena atenção nos movimentos próprios e de outrem.

Mas talvez a forma mais diferente de se meditar, utilizando-se movimentos corporais, foi defendida por Mohan Chandra Rajneesh, o Osho (1.931-1.990). Apresentada ao público em 1.968, a Meditação Dinâmica é uma técnica revolucionária, especialmente dirigida ao homem moderno, objetivando uma liberação das emoções reprimidas, um estado de total alerta, relaxamento e harmonia em grupo.

Feita diariamente em seu ashram (monastério), como a primeira atividade diária, a Meditação Dinâmica dura cerca de uma hora e tem cinco estágios. No primeiro estágio, que dura cerca de dez minutos, se respira de forma vigorosa e rápida pelo nariz, se concentrando na exalação. Deve-se usar de movimentos corporais espontâneos para ajudar no exercício respiratório. Então, subitamente, deixa-se sair tudo o que precisa ser jogado fora: vômitos, gritos, berros choros, risos, tremores convulsivos involuntários, etc.. Com o corpo sempre em movimento,evita-se que a mente interfira no que está acontecendo.

Decorridos dez minutos nesse segundo estágio, com os braços para cima e saltando no mesmo lugar, grita-se “Hoo! Hoo! Hoo!” o mais profundamente possível, deixando que o som reverbere na região do segundo Chakra cada vez que a sola dos pés toca o chão. Faz-se isso por mais dez minutos ou até a exaustão total, quando então se pára e se imobiliza no lugar e posição em que se ficar. Inicia-se o terceiro estágio: uma imobilização total durante 15 minutos, numa total atenção a tudo o que se está passando no corpo, nas sensações, nas emoções e na mente. Então se volta a mexer-se, cantando, dançando e expressando gratidão para com o Todo. Mas Osho faz uma ressalva para quando, se por acaso, persistirem sintomas de dores ou náuseas por mais de três ou quatro dias de meditação: nesse caso deve-se procurar ajuda médica.

 

A Meditação nas atividades diárias

 

Segundo Mohan Chandra Rajneesh – o Osho (1.931-1.990), o que quer que se faça de forma consciente pode ser chamado de meditação: “a ação não é a questão, mas a qualidade que você traz para a ação”. Assim, estar concentrado no que se está fazendo, tornando consciente todos os nossos gestos habitualmente automáticos, torna muito mais difícil a ocupação da mente com as coisas passadas e com as coisas futuras. A mente analítica, acostumada a atuar para resolver problemas cotidianos, fonte de raivas, ansiedades e angústias, perde seu espaço de atuação para a mente atenta que vive cada momento de sua vez.

Pode-se passar todo o dia cônscio do momento presente. Acordar, ainda com a lembrança dos sonhos e voltar a “sonhar acordado”, revivendo e anotando os sonhos. Espreguiçar-se esticando e contraindo cada músculo do corpo, conscientemente, acordando devidamente o corpo físico. Levantar-se da cama e ir ao banheiro concentrado no que se faz no vaso sanitário, as sensações de alívio, ao se eliminar a urina e ao se lavar a boca. Concentrar-se na escovação de cada face de cada dente da boca, num ritual de se diminuir as toxinas acumuladas durante a noite, para que não as ingiramos indevidamente.

Quando nos alimentarmos, devemos comer lentamente, prestando plena atenção ao ato de levar o alimento à boca, ao mastigar, à salivação, ao contato do alimento na boca se transformando numa pasta, para enfim engolir e só então preparar uma nova porção de comida para levar à boca. Praticar alguma atividade física, como o caminhar, prestando atenção na respiração, sincronizando-a com as passadas, as quais devem ser percebidas: o deslocar do peso em cada passo, o contato com o chão, etc..

Lavar a louça, a roupa, ir ao trabalho e entrar em contato com os desafios e necessidades dele, enfim, durante o dia, ter um tempo certo para ceder atenção para cada atividade que deva ser desempenhada, um tempo para a família, para os animais de estimação, para os estudos, para o trabalho, para as atividades físicas, para as atividades espirituais, etc., fazendo tudo ritualisticamente, com atenção e deferência. Conhecido pelos hindus como Karma-yoga, visa a se viver o momento presente, centrado no que se está fazendo no momento, podendo se concentrar também no significado da ação, ou não.

Mas Karma-yoga também é a prática de dedicar cada ação, conscientemente praticada, ao Supremo Originador: a Deus. Agradecer-Lhe a vida, as oportunidades, o alimento, a saúde, as posses, o trabalho, etc., renunciando à posse dos possíveis frutos e glórias de qualquer ação praticada, creditando-os a Deus: agir corretamente, pelo simples prazer de cumprir o dever ou fazer o bem, sem esperar nada em troca, nenhum ganho pessoal. É a sabedoria que elimina a ação do ego sabendo que alguma recompensa advirá como fruto, no devido tempo, embora não seja essa a busca.

Santa Faustina Kowalska (1.905-1.938) recomendava não se passar nenhum dia sem ao menos um ato de misericórdia pela ação, pela palavra ou pela oração. Assim, dividiu as obras de misericórdia em sete corporais e sete espirituais 31:62. As corporais são: dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, dar de vestir a quem não tem roupa, dar pousada a quem não tem teto, dar auxílio aos enfermos, visitar os presos e enterrar os mortos. E as espirituais são: dar bom conselho, ensinar os ignorantes, corrigir os que erram, consolar os tristes, perdoar as injúrias, sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo e rogar a Deus por vivos e mortos.

No Philokalia, citado anteriormente, São Pedro de Damasco fala: “Mais importante do que cuidar da respiração é aprender a invocar o nome de Deus em todos os momentos, em todos os lugares e durante qualquer atividade... Se você olha para o céu, para a terra, as águas e tudo o que há neles, maravilhe-se e glorifique o Criador de tudo... Resumindo, que toda ação seja ocasião para lembrar sempre e adorar a Deus”.

Assim, com a prática incessante, louvar a Deus e se ocupar das atividades cotidianas passa a ser um hábito automático. Madre Teresa de Calcutá (1.910-1.997) afirmava que não era necessário interromper o trabalho para poder orar: “podemos, sim, continuar trabalhando como se o nosso trabalho fosse uma prece” 12:50. Fazer do trabalho uma prece é amar o que se faz, é colocar amor em tudo o que se produz e distribuir alegria por meio da ação e do serviço. Para ela, amar deveria ser tão normal para nós como viver e respirar, dia após dia, até a nossa morte: “Nós não lutamos por atos espetaculares. O que importa é a doação de você mesmo, o grau de amor que você coloca em cada uma de suas ações”  12:108.

A mesma visão tinha São Josemaría Escrivá de Balaguer (1.902-1.975), sacerdote católico fundador do Opus Dei (Obra de Deus), entidade religiosa fundada em 1.928, em Madri, voltada para a santificação pelo exercício cotidiano do trabalho profissional e do cumprimento dos deveres pessoais, familiares e sociais. São formas de Karma-yoga, ações praticadas por pessoas que sabem que a meta da vida é o Espírito, desapegados que são dos frutos de suas atividades.

“... cultua-me com tuas atividades; se a mim somente dedicares as tuas atividades, também atingirás a meta da perfeição”.

Bhagavad Gita 12:10

A Meditação nos Rituais

Os rituais, como forma meditativa, trazem mais benefícios pessoais do que a meditação individual. Embora o trabalho individual seja imprescindível, a energia do grupo, unido como um grande organismo em volta de um mesmo objetivo, ajuda nas dificuldades pessoais em se manter a disciplina diária de meditar. Paramahansa Yogananda comparava a pessoa que meditava como uma pequena brasa que necessitava estar junto de outras “brasinhas” para se manter acesa fazendo parte da fogueira. Uma “brasinha” mantida só, se apaga.

“Porque onde dois ou três estão reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” (Mt 18:20). A meditação mais profunda de uns reforça a meditação mais superficial de outros, pelo intercâmbio magnético que se forma. Há uma ajuda mútua nos momentos de fraqueza e desânimo, um fortalecimento das próprias convicções espirituais e, de um modo geral, apressa a evolução pessoal.

Todas as pessoas que participam efetivamente de um ritual relatam a intensa paz e alegria que sentem, e quando o ritual é silencioso experimentam um intenso silêncio interior, difícil de ser obtido na prática pessoal solitária. Esse silêncio envolve toda a assembléia como se o Divino estivesse presente de forma palpável. Assim, em todas as tradições, inclusive entre os protestantes da Sociedade dos Amigos, os quacres, existem rituais em grupo fazendo parte da rotina espiritual, principalmente nos monastérios.

Um belo ritual em grupo é o sankirtan hindu, onde se reúnem pessoas para cantar devocionalmente ininterruptamente, até que a mente chegue ao nível da meditação silenciosa, livre do pensamento reflexivo. O canto, através do som, da respiração e da atitude devocional, libera energias bloqueadas, sendo um poderoso exercício para superar condicionamentos. Sri Sri A’nandamu’rti (1.921-1.990) e seus discípulos passavam horas cantando o mantra “Babanan Kevalam”, que significa “tudo que existe é manifestação do Amor Divino”. Os monges beneditinos entoando cantos gregorianos são o exemplo católico de sankirtan.

Além desse motivo, um outro motivo existe, invisível e místico, para a existência dos rituais. Na realidade, as palavras, pensamentos e símbolos presentes nos ritos, celebrados por uma comunidade unida espiritualmente na celebração, compondo um verdadeiro organismo de amor, um só coração e uma só voz, escondem o silêncio e o mistério de toda uma realidade invisível, muito mais vasta que a contemplada fisicamente. Uma perfeita e invisível liturgia divina, incompreensível às mentes lógicas humanas, com cânticos silenciosos e orações ocultas acontece.

“Aqui, diante do altar... sabemos que estão presentes os solitários do deserto..., os presos..., as almas sepultadas no mistério da morte e não ainda purificadas... [e] o corpo monástico inteiro, passado, atual e futuro, está presente de modo especial...” 60:61.

Padre Thomas Merton (1.915-1.968)

monge beneditino

  Um dos mais conhecidos rituais dos dervixes (seguidores do sufismo) é a dança do Sema, onde alguns giram durante horas, imersos em profundo êxtase, com os braços estendidos, a palma da mão direita elevada e voltada ao alto e a palma da mão esquerda mais baixa e voltada ao chão. O propósito, segundo dizem, é permitir que a energia divina de Alá atravesse o corpo, entrando pela palma da mão direita e saindo pela palma da mão esquerda, para espalhar-se por toda a Terra. Na realidade, isso acelera tremendamente a rotação dos Chakras, ativando-os.

Mas uma atividade mais simples é girar 33 vezes, no sentido horário (da esquerda para a direita), com um dos braços estendido à frente do corpo, focalizando o olhar para o polegar, pelo menos uma vez ao dia. Com o tempo deve-se aumentar a velocidade do giro e fazê-lo até três vezes ao dia. Ao término dos giros, se juntam as mãos em oração na altura do coração, e, mantendo os olhos abertos, se equilibra em pé, mantendo os pés afastados à largura dos ombros, enquanto ainda se sente o giro.

O cerne da prática meditativa ritual é a total presença naquilo que se está executando, cada movimento realizado, cada palavra proferida, cada cântico entoado, buscando-se viver o momento presente ao mesmo tempo em que se contempla o significado, real ou simbólico, de cada ação. Na cerimônia japonesa do chá, na prática da arte da caligrafia, do origami ou dos arranjos florais, encontram-se outros belos exemplos de práticas rituais, em que se exercita a presença.

Nesse contexto, até uma refeição em família pode ser um exercício meditativo de quietude mental compartilhada. Quando corações são unidos em prol de um objetivo comum, passam a ressoar como um único coração, muito mais potente que um coração individual ou que a soma simples de todos os corações. Uma energia sutil passa a circular e impulsionar a cada um individualmente. Por isso a importância dos rituais coletivos no avanço individual de cada alma.

“O ritual pode ser a maneira pela qual entramos em um estado de coerência cardíaca [cardiocontemplação] mútua, uma forma de oração em grupo habitual e a intervalos regulares que ajuda todos... a recuperar as memórias... de seu relacionamento afetivo não apenas com os presentes, mas com os ancestrais cujos retratos e histórias podem fazer parte do ritual” 74:239.

Dr. Paul Pearsall, Ph.D.

cardiologista

Categoria: Órion Volume 2

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