Para ser Feliz o Homem Precisa Viver Sem Máscaras

 

 

Fernanda Oliveira

Fernanda Oliveira

 

Psicólogo aponta o desenvolvimento pleno da capacidade de viver uma vida sem defesas, sem medos e sem os bloqueios do dia-a-dia essenciais à felicidade. “É preciso permitir-se sentir”, diz

 

Iracema Sales
Da editoria de Reportagem

“Ser feliz é fácil e significa a capacidade humana de sentir plenamente as suas emoções e dar significado a elas, compreendendo os sentimentos vividos no dia-a-dia”. A tese é do professor Francisco da Silva Cavalcante Junior, doutor em Psicologia, professor do mestrado de Psicologia da Universidade de Fortaleza (Unifor) onde coordena o grupo internacional de estudos, a Rede Lusófona de Estudos da Felicidade (Relus). O pesquisador ancora sua reflexão numa pesquisa aplicada nas seis Secretarias Executivas Regionais (SERs) de Fortaleza, quando foram aplicados 120 questionários indagando qual era a razão da felicidade para o fortalezense. Em primeiro lugar, desponta pertencer a uma família, em seguida desfrutar do bem-estar e, em terceiro, ter paz. Dinheiro aparece em oitavo lugar. “Isso mostra que a felicidade não está diretamente relacionada ao desenvolvimento econômico de uma população”, analisa. Cavalcante Junior foi o único cientista brasileiro a apresentar trabalho que contou com o financiamento da Unifor, no II Congresso Internacional sobre Felicidade realizado no Canadá, em junho do ano passado, para discutir sobre o conceito e a prática da Felicidade Interna Bruta (FIB).

Diário do Nordeste – Muitos pensadores pregaram o fim da utopia por ser algo impossível de ser realizado. O desencanto veio principalmente em função das desilusões diante do descrédito das utopias no campo da política e da impossibilidade da organização de uma sociedade livre. Diante do fracasso da utopia, a felicidade ocuparia esse espaço, por ser algo construído, momento a momento?

Cavalcante Junior – A felicidade é um tema bastante antigo. Como por exemplo, quando Aristóteles apresenta o eudemonismo, conceito que ele usava para definir felicidade, eu quer dizer bom e daimon, espírito, isto é, a felicidade para ele consistia em ter um bom espírito. E essa felicidade vem sendo buscada há milhares de anos, e parece-me que quanto mais você busca, menos encontra. Porque ela não está fora de mim, o ser humano, mas eu a busco fora.

— A que o senhor atribui essa tentativa das pessoas de buscarem a felicidade fora delas próprias?

Cavalcante Junior – É que chegamos a um nível de desenvolvimento tecnológico onde somos provocados a ter muitos desejos. Desejo ter o melhor celular, o melhor carro, a casa mais confortável, e atribuo a esses objetos a razão da minha felicidade. Só que no momento em que adquiro o objeto, passo a desejar outro, porque somos seres desejantes por natureza, estamos constantemente desejando e nos apegamos ao desejo.

— E como a pessoa descobre que a felicidade está dentro dela mesma?

Cavalcante Junior – No momento em que me desapego das coisas materiais e passo a dar sentido à minha vida existencial. É nesse momento, que acho interessante aprendermos com os artistas, os poetas, os pintores, que são pessoas que aprenderam que a felicidade está na capacidade humana de viver a experiência estética, do belo, da estesia, ou seja, a capacidade de sentir que nos é própria enquanto humanos. E os artista sabem sentir, alguns sentem tão profundamente que adoecem.

— Dessa forma a felicidade está presente nas nossas vidas…

Cavalcante Junior – Ele está presente no nosso dia-a-dia e consiste na capacidade que temos de viver uma vida boa.

— E o que é uma vida boa?

Cavalcante Junior – Compreendo por vida boa aquela que está sempre em processo, ou seja, sendo sempre constituída, a partir da minha experiência no meu cotidiano. E nesta vida boa passo a agir sem defesas, sem medos, porque passo a funcionar plenamente como ser humano. E nesse funcionamento pleno está a minha capacidade enquanto humano de sentir todas as emoções: amor, ódio, alegria, tristeza, raiva, porque não existe uma vida sem essas emoções. Porém, quando vivo uma vida feliz ou boa, sei equilibrar as emoções e tenho consciência de que elas fazem parte dela. Ora vou estar alegre, ora triste, vou ter raiva e amar também. É a capacidade de aceitar a estesia da vida, ao contrário do que muitos hoje fazem, buscam a anestesia.

— O que significa uma sociedade “anestesiada”?

Cavalcante Junior – Hoje, estamos vivendo uma sociedade que está se tornando intolerante a qualquer tipo de dor. Então, muitos estão optando por viver uma vida anestesiada. Os artistas nos ensinam que precisamos estesiar mais, ou seja, sentir plenamente e refletir sobre as emoções. O sentimento é restrito aos seres humanos, únicos capazes de refletir sobre as emoções e dar sentido a elas.

— Nesse aspecto, a felicidade pode ser realizada? Quais seriam os caminhos?

Cavalcante Junior – A felicidade, na forma como a compreendemos no estudo desenvolvido na Unifor, consiste em viver uma vida boa. E para se viver bem é preciso reconhecer que somos seres dotados de emoções e, por isso, é preciso refletir sobre elas, a fim de compreender os nossos sentimentos. Se a gente utilizar plenamente a capacidade humana é possível ser feliz. Mas, infelizmente, uma grande parcela da população tem preferido agir de forma irracional e desumana. São pessoas que estão buscando mais êxtase, mais prazer, mais consumo e essas pessoas estão aniquilando a sua própria humanidade. Tornam-se reféns da sociedade do consumo, do prazer, do abuso.

— Como a política poderia ajudar na realização da felicidade do povo?

Cavalcante Junior – Quando falamos em política, nos referimos à polis que nos remete à comunidade, ao povo, então estamos falando de uma felicidade coletiva. E para se viver uma felicidade coletiva é preciso, inicialmente, viver a individual, que consiste na liberdade que o ser humano precisa ter para tornar-se quem realmente é. Isso significa viver sem máscaras, plenamente a pessoa que ela é e a natureza que ela traz dentro de si. E nisso, me remeto aos existencialistas, que concebem a vida como uma singularidade, onde cada um é singular em sua natureza e precisa tornar-se quem ele é.

— E quando isso vai acontecer, ou seja, o ser humano vai conseguir viver sem máscaras?

Cavalcante Junior – No momento em que tivermos uma sociedade tolerante às diferenças, que autoriza o outro a ser quem ele é sem imprimir julgamento de bom ou ruim, aceitável, inaceitável, aí, sim, teremos pessoas felizes, porque elas se tornaram o que elas desejavam ser. E para dar sustentação a essa felicidade coletiva precisamos ter um governo ético, que cultive as leis da vida boa e promova o bem-estar. Dessa forma, teremos uma população moral que segue as regras e as normas para uma boa convivência social, além da valorização da nossa cultura. Respeitaremos e preservaremos a natureza e o ecossistema que nos rodeia e priorizaremos a democracia como uma forma de governo plural, garantindo o acesso ao desenvolvimento social de todos os seus cidadãos.

— Esse projeto de felicidade começaria pela própria relação do povo com a cidade, com o trabalho. No entanto, observa-se que o poder público não oferece condições para manter a paz social, nesse caso fica mais difícil ser feliz numa sociedade marcada pelo medo, pela violência e injustiças sociais?

Cavalcante Junior – A violência é uma linguagem. No momento atual que estamos vivendo no Brasil, ela deseja significar uma crise extrema que atingimos de convivência social. Penso que estamos num momento oportuno, ao falar de felicidade estamos criando uma esperança de transformação deste mundo, não através de uma esperança vã, mas sim da criação de um novo verbo, o esperançar, como Paulo Freire nos ensinou, significa agir para a transformação social do mundo.

— Existem alguns sinais de que esse quadro está mudando? Poderia citar algum exemplo?

Cavalcante Junior – Temos visto que veículos de comunicação de massa optaram pela veiculação da felicidade. A CNN tem programas dedicados às notícias felizes. Na Inglaterra, existe um veículo chamado “Happy News” e, no Brasil, a revista “Trip”, de São Paulo se dedicam a temática da felicidade. Precisamos mostrar que existe felicidade neste mundo cruel.

— E existe um modelo de felicidade ou cada sociedade constrói o seu através dos seus próprios valores?

Cavalcante Junior – Existe um modelo padrão para o ser humano que significa possibilitar que ele viva plenamente a sua vida. Se garantirmos isso, iremos construir pessoas potencialmente capacitadas para viver felizes. Mas não basta a potencialização individual, precisamos de uma sustentação social, de um governo comprometido com a felicidade coletiva.

— O senhor poderia citar exemplos concretos de que essa realidade está mudando?

Cavalcante Junior – Países como a Austrália, Canadá e Nova Zelândia, liderados Butão um pequeno país asiático, estão propondo um novo índice de medição do desenvolvimento de uma nação, chamado Felicidade Interna Bruta (FIB) substituindo o Produto Interno Bruto (PIB).

— Como esses países chegaram a essa conclusão?

Cavalcante Junior – Pesquisadores desses países viram que não é a capacidade financeira de um país que gera a felicidade e, sim, valores subjetivos como relação familiar, vivência de uma vida serena, em paz, e a capacidade de ter uma boa saúde. São condições subjetivas que norteiam a felicidade de um povo.

— O conceito de felicidade mudou através dos séculos? O que era felicidade, por exemplo, para o homem da idade antiga é diferente para o moderno?

Cavalcante Junior – A felicidade é um conceito dúbio, porém na sua essência e na sua etimologia, não mudou. A sociedade capitalista criou um novo conceito, o de bem-estar, que muitos utilizam como sendo o mesmo que felicidade, o que não é verdade. Quando falamos em bem-estar, nos remetemos a prazer, uma conseqüência do desejo humano, quanto mais se tem, mas se quer ter. A felicidade não se busca, é contínua, você não precisa de mais quando a tem. Por isso, precisamos diferenciar, felicidade não é a mesma coisa de bem-estar. O que estamos vivendo agora é a sociedade do bem-estar.

— Então, as sociedades modernas trouxeram um novo conceito de felicidade. Qual?

Cavalcante Junior – Sim, o de prazer como sinônimo de felicidade.

— O progresso das ciências contribuiu para alcançar a felicidade? Por que?

Cavalcante Junior — Esperava-se que com o desenvolvimento industrial chegássemos a um grau maior de felicidade para a humanidade. Viemos de uma sociedade rural, agrícola onde o trabalho era braçal, exigia uma dedicação quase exclusiva à agricultura por parte dos seres humanos. Chegamos à industrial, quando foram criadas as máquinas, os tratores para substituir parte da mão-de-obra e alcançamos a pós-modernidade, com os computadores de última geração, aparelhos celulares que fotografam. Mesmo assim, o ser humano continua triste e escravo como era na época agrícola, portanto, a evolução industrial não libertou o homem, ao contrário, o tem aprisionado. O problema não está no desenvolvimento da sociedade, mas em nós mesmos, humanos que não sabemos fazer uso do desenvolvimento tecnológico e científico que está a nossa disposição.

— Até que ponto a sociedade de consumo veio “substituir” esse conceito ou sentido de felicidade baseada em coisas simples como ter pão, um teto, saúde? Consumir traz felicidade?

Cavalcante Junior — A felicidade é algo simples que não está impressa na tecnologia, nos produtos materiais, mas dentro de nós humanos. Ela vem nos resgatar e convidar ao resgate de uma humanidade que está sendo perdida. Precisamos de um novo humanismo, compreendido como um reencontro com a nossa condição de seres humanos, porque nos tornamos máquinas, robôs, escravos da tecnologia.

— Quais as possibilidades reais de ser feliz?

Cavalcante Junior – Em primeiro lugar, desenvolver plenamente as suas capacidades humanas de viver uma vida sem defesas, sem medos, sem os bloqueios do dia-a-dia e permitir-se sentir. Em segundo, adquirir ou readquirir os olhos inocentes de criança que um dia tivemos e, hoje, perdemos. Isso significa: viver uma vida sem julgamentos, mas tentar contribuir para uma vida ética, um bem viver. E para viver bem com o outro, preciso ser tolerante às diferenças.

— É possível construir uma cultura de felicidade universal ou ela muda de um lugar para outro, de um povo para outro. Ou seja, quanto mais civilizada uma sociedade maior é o seu mal-estar ou grau de insatisfação?

Cavalcante Junior — Tanto é possível que esse trabalho que desenvolvo, hoje, num cantinho do Brasil, no Ceará, tenho colegas no Butão, na Ásia, também desenvolvendo, assim como, colegas na Austrália, no Canadá, na Venezuela e Nova Zelândia. Em diversas partes do mundo existe um grupo de pesquisa e de aplicação de uma felicidade coletiva e felicidade interna bruta comprometidas para o desenvolvimento de suas nações. O desejo de felicidade é universal, mas precisa de ações, como isso que estamos fazendo na Unifor, que precisa ser ampliada para outros grupos, como governo do Estado, prefeitura Municipal, governo Federal e outras pessoas no Brasil que se comprometam com a promoção de uma felicidade coletiva. É o mesmo que a Organização Mundial da Saúde (OMS) vem fazendo com a promoção da saúde coletiva.

— Mas as pessoas vivem um momento de mal-estar generalizado com depressão, angústia. O senhor concorda?

Cavalcante Junior — Não. Porque estamos divulgando o negativo, as doenças da vida. Os jornais deveriam dedicar páginas às notícias de fatos positivos. Se construirmos uma sociedade centrada na felicidade coletiva, vamos reduzir o sofrimento da humanidade que se vê escravizada com os mal-estares, as doenças. Eles não vão deixar de existir, o sofrimento faz parte da vida, mas serão reduzidos.

— Felicidade, paixão e desejo caminham juntos?

Cavalcante Junior — O desejo é o inimigo da felicidade e, quanto mais desejo, mais infeliz sou. O que encontramos na sociedade atual é o apego à eterna juventude. O apego é um inimigo da felicidade. O desejo é a natureza do ser humano, porque somos seres desejantes o que precisamos aprender é educar os nossos desejos. Querer ser feliz é também um desejo, agora, como vou ser feliz é uma decisão ética que preciso fazer de como quero viver bem.

Rede Lusófona de Estudos da Felicidade – RELUS
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Coordenação:
Francisco Silva Cavalcante Junior, Ph.D.
Professor-Titular – Mestrado e Graduação em Psicologia (UNIFOR)
cjunior@unifor.br

Universidade de Fortaleza – Mestrado em Psicologia
Avenida Washington Soares, 1321, Sala N13 – Edson Queiroz
60811-905 – Fortaleza – Ceará – BRASIL
Tel.+55 (85) 3477.3219 – relusunifor@gmail.com
www.cavalcantejunior.com.br/relus

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