Meditando como Abraão

Estamos compartilhando alguns ensinamentos sobre Meditar como Abraão. Ensinamentos transmitidos pelo Leloup, no seu retiro sobre “Meditação Hesicaste – a Oração do Coração” e nos seus livros “Escritos sobre o Hesicasmo” e “O Ícone – uma escola do olhar”. Sugerimos que escutemos com o coração, continuando nossa meditação nesse mês.

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Na história de Abraão há um momento interessante quando ele está sentado na entrada da tenda, em pleno meio dia e recebe a visita de três estrangeiros, três anjos. Este ícone que acabamos de olhar nos fala desses três anjos que Abraão acolheu, nos quais ele vê o Único. Diz o Gênesis que quando  Abraão viu três homens de pé correu  ao seu encontro e disse: “Meu Senhor,eu te peço,se encontrei graça aos teus olhos,não passes junto do teu servo sem te deteres.” E Abraão apressou-se a juntar-se a Sara na tenda e prepararam uma refeição. Permaneceu em pé, junto deles, sob a árvore, enquanto eles comiam. Esses homens são representados com asas, ou seja, anjos, enviados de Deus, faces visíveis do invisível. O ícone tenta transmitir essa unidade entre o um e o múltiplo. Essa unidade não é da indiferenciação, mas  da aliança. Trata-se de ir além do um e do dois para a unidade do três. Este ícone simboliza o mistério do amor. Meditar como Abraão é acolher o um e o múltiplo, não usar o um para reduzir tudo a um denominador comum. Cada anjo está voltado em direção ao outro. E ai existe todo este movimento circular e como a vestimenta de um se reflete na vestimenta do outro. As linhas convexas e côncavas se harmonizam umas com as outras. E  a taça  está no centro. Simboliza o coração de Abraão; coração  que nesse ato de hospitalidade, nesse ato de abertura ao desconhecido percebe a presença de Deus, comunga com essa Presença.

Uma outra etapa na meditação de Abraão é quando ele viu o que ia acontecer com Sodoma. A cidade ia ser destruída, fazendo-se cumprir a lei do karma: tal causa gera tal efeito, a violência gera a violência, a destruição gera a destruição. Abraão teve essa visão que também pode ser a nossa: se continuarmos a viver como nós vivemos podemos ter o pressentimento que este mundo vai desaparecer. E aí a atitude de Abraão é interessante para nós porque não é uma atitude de julgamento. Ele não diz: “bem feito, eles vão colher o que semearam”. Ao contrário, Abraão intercede pela vida fazendo uma negociação (ele era comerciante): se houver 50 justos nessa cidade o Senhor vai destruir os justos com os malvados? Pouco a pouco o número de justos vai diminuindo. E se houver 10 justos nessa cidade o senhor vai destruí-la? Meditar como Abraão é interceder pelas pessoas. Essa forma de meditação livra o coração de todo julgamento e de toda condenação;ela apela para o perdão e a benção, sejam quais forem os horrores ocorridos. Isso nos lembra a importância da oração…

Existe ainda uma outra etapa na meditação de Abraão, na oração do coração. É quando ele sobe com o seu filho Isaac em direção à montanha. Abraão está disposto a sacrificar seu próprio filho. Meditar como Abraão é ser capaz desse total despojamento de si e do que se tenha de mais caro. Dar à vida aquilo que a vida nos deu, dar ao amor aquilo que o amor nos deu. Nada nos é devido,tudo nos é dado. Diz o Gênesis que quando Abraão toma a espada para imolar seu filho,”eis que um anjo do Senhor lhe diz: Abraão, Abraão, não sacrifique o menino”. Portanto, não se trata de destruir o que quer que seja,sobretudo o que lhe era tão precioso. Assim, a espada não deve cair sobre Isaac, mas sobre a ligação entre Abraão e Isaac. Não se trata de se agarrar, mas de desamarrar essa ligação; as vezes, cortá-la, para dar ao outro a sua liberdade, dar a nós mesmos a nossa liberdade. Permanecer nessa qualidade de amor que torna o outro livre e que nos torna livres. Os antigos dizem que quando Abraão subia ao topo da montanha ele pensava em seu filho e ao descer ele pensa no filho que Deus lhe deu. Essa é uma experiência que podemos viver no coração da oração.

Enfim, meditar como Abraão é saber discernir o uno no múltiplo, é praticar a hospitalidade, é discernir a presença no coração do ser e das coisas,é ser capaz de interceder e de sentir compaixão.

Leloup nos chama atenção que é preciso toda uma vida para aprender a meditar como Abraão. É preciso toda uma vida para aprender a amar. Mas, com compreensão e amorosidade, ele também nos diz: ”vocês sempre podem dar um passo a mais”. Permaneçamos em silêncio, para o nosso bem estar e o bem estar de todos.

 

Calmamente, retornemos a este espaço, abramos os olhos…Compartilhemos,se o coração pedir.

 

(Texto adaptado do retiro Meditação Hesicaste – a oração do coração, dirigido por Jean-Yves Leloup, e dos seus livros  Escritos sobre o Hesicasmo e  O Ícone – uma escola do olhar)

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