A Cruz e a Trindade

Órion: Filosofia, Religião e Ciência (Volume 1)

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Em seu repouso não há o tempo, só um eterno presente, somente as trevas enchem todo o espaço ilimitado (como em Gn 1:1s). Nada mais existe. Em sua atividade surgem os Universos. Do Nada surge Tudo e Tudo volta ao Nada. No repouso, Brahman é a Existência Absoluta, o Não-manifestado. Na atividade, Brahman inicia Sua evolução. Ocorre uma expansão de dentro para fora e Brahman se torna o 1o Logos Subjetivo (o Eterno Masculino – Nara para os hindus), a unidade homogênea com toda a diferenciação em potencial, a Causa Primeira. Então do 1o Logos Subjetivo, emana seu poder divino, sua Consorte. Ele se torna o 2o Logos Subjetivo (o Eterno Feminino – Nari para os hindus), o Espírito de Deus (Gn 1:1). Essa energia feminina do Universo é representada pela figura da Mãe Divina, a Maya hindu, a Mãe-Natureza que projeta todas as formas, visíveis e invisíveis, do Universo manifestado. Para os indianos, Deus tem a forma da Mãe, a Mãe Divina fonte do amor materno, enquanto para os judeus Deus tem a forma de Pai Celestial, a fonte da Sabedoria, Justiça e Proteção. Enquanto a Mãe Divina gera o amor incondicional que perdoa, o amor do Pai Celestial gera o amor incondicional que disciplina.

 

“Ó Brahman Supremo! Vós não possuís forma, contudo… unindo-Vos com Maya, elaborastes o Universo… O Universo é a Vossa Maya…Vós sois o Senhor e o Mestre de Maya… a Vossa Consorte Divina… Ao Vosso comando, Maya, Vosso poder divino, projeta este Universo…”

Swetasvatara Upanishad

 

A Existência Absoluta, impessoal, associado com o poder de Sua Maya é conhecido nos Upanishads como Hiranyagarbha, a dualidade PAI-MÃE, o “Espírito do Universo”, o “Que-Nasceu-Primeiro” que é a fonte do Espírito e da Matéria (Purusha e Prakriti na filosofia Shânkia hindu) e de toda a vida dual. Esse “dual dentro da unidade” produz a “Ideação Cósmica” (O Mundo das Idéias), a base inteligente da Natureza, Seu pensamento, a “Alma do Mundo” ou 3o Logos Subjetivo (o Verbo Criador – Viraj para os hindus). Para os cristãos, Deus é o “Pai nosso que estais nos céus” (Mt 6:9), que ama incondicionalmente os homens, mas age com justiça. Essa é a forma como o Filho, o Cristo reconhecido pelos cristãos como o Verbo Encarnado, vê o Deus PAI-MÃE.

Esse Verbo Criador, o Aum presente nos Vedas, a terceira pessoa da Santíssima Trindade ortodoxa, o Cristo (Jo 1:1-18), é a verdadeira Luz, a Vontade pura do PAI-MÃE, a Divindade Manifestada. Ele é o OM dos Upanishads, o Aum dos Vedas que se  tornou a palavra sagrada Hum dos tibetanos, Amin dos muçulmanos e AMÉM (“seguro, fiel” em hebraico) dos egípcios, gregos, romanos, judeus e cristãos: “a Testemunha fiel e verdadeira, o Princípio da criação de Deus” (Ap 3:14).

Na realidade não há uma Criação, mas uma transformação contínua no rumo da materialização, um despertar contínuo de aspectos do Imanifesto. De Parabrahman ao Verbo Criador e Deste ao Universo. Esses três Logos Subjetivos, fases evolutivas e ao mesmo tempo facetas manifestadas do Absoluto, aspectos ou faculdades divinas, princípios intelectual, plástico (que dá forma) e produtor, representações dos poderes de Parabrahman, são comumente corporificados em outra Trindade: Sat, Tat e Aum (Pai, Mãe e Filho). Uma trindade subjetiva emanada do Incognoscível: três, mas ao mesmo tempo um. PAI, MÃE e FILHO são o Supremo, o Poder e a Vontade.

Então o 3o Logos Subjetivo (o Verbo Criador, “esplendor da glória de Deus e imagem do Seu ser” – Hb 1:3 e Jo 17:21s), quando desce à manifestação, se torna o 1o Logos Objetivo Criador (o Primogênito manifestado – Jo 8:58, Jo 17:5, Cl 1:15-20, Fl 2:6, Hb 1:2), a “Mente Universal” que dá origem ao tempo e ao espaço. Sua vibração cósmica, o “pensamento d’O TODO”, se alastra por toda parte e se condensa em “centelhas vitais vibrantes” ou força vital (o Prana dos hindus). Por isso o Filho afirma ser a Vida (Jo 14:6), o Caminho que leva ao Pai. Essas centelhas são a manifestação da Palavra de Deus (do Verbo Criador), a forma por meio da qual o Pensamento Divino imprime seu desejo sobre a Substância Cósmica emanada da Mãe Divina. Essas centelhas vitais se manifestam no plano físico na forma de partículas subatômicas, do mesmo modo que essas partículas manifestam-se na forma de átomos. Em decorrência dos movimentos desses átomos, as trevas irradiam luz sobre o abismo-mãe (Gn 1:3ss). Já não mais existem trevas. E o Universo surge.

Enfim, o Primogênito emana o 2o Logos Objetivo que emana o 3o Logos Objetivo, as três formas ou aspectos Criador, Preservador e Destruidor d’O TODO, a Trimurti hindu: Brahma, o Criador, Vishnu, o Preservador – e seus Avatares, e Shiva, o Destruidor. O segundo aspecto do Verbo, Vishnu, desce à Terra sempre que o mal ameaça superar o bem, com o fito de restaurar o Dharma (a Lei) e a Retidão, que correspondem à Ordem Cósmica (Bhagavad Gita 4:7-8). É uma aproximação divina, são os Filhos de um mesmo Pai, com o qual são plenamente identificados. Sua missão é a de direcionar a consciência humana ao “Eu interior”, a centelha divina, o Espírito Santo presente dentro de cada um (Jo 14:17), desviando-a do mundo exterior, a fim de que multidões dêem um exemplo de vida inundada de amor, modelada Neles.

O Tao Te Ching também expressa semelhante doutrina, de que o Tao, impronunciável e eterno, que “parece ser anterior a Deus” (verso IV), gera o “Um”. O “Um” oscila continuamente entre seus dois aspectos: o “Não-Ser” (o princípio do Céu e da Terra) e o “Ser” (a Mãe do Mundo). Por isso diz-se que o “Um gera o Dois”. Quando na fase do “Ser” (em que se chama Mãe do Mundo), o “Um” se torna “Três”: ‘semente’, ‘sutil’ e ‘pequeno’ (I, Hi e We), que não se vê, não se ouve nem se sente. É necessário que o “Dois” exista para surgir o “Três”, aquele que “gera todas as coisas”. A Mãe do Mundo, existente antes que o Céu e a Terra existissem, silenciosa, imutável, embora sempre em movimento (verso XXV), é a origem do Mundo. Da relação entre o Pai (Um) e a Mãe (Dois) gera-se um Filho (Três), que é o (Verbo) Criador: “O Tao gera o Um. O Um gera o Dois. O Dois gera o Três. O Três gera todas as coisas” (Tao Te Ching XLII).

Num certo sentido podemos dizer que há uma “Dialética Divina”. Acima e fora de toda manifestação e “não-manifestação” está Parabrahman ou o verdadeiro Tao. Dentro do ciclo de manifestação e “não-manifestação”, de existir e “não-existir”, de “Ser” e “Não-Ser” está Brahman (o “Um”). Enquanto não existe manifestação, nada ocorre (descrito na literatura hindu como a “noite de Brahman”). Mas quando se inicia o desabrochar da Criação (o “dia de Brahman”), devido à ação do Princípio da Mudança, o Um se manifesta e, por isso mesmo, surge o Seu complementar. Toda Tese sempre trás embutida em seu cerne sua Antítese. O Uno manifestado sempre vira Dual. Aliás, devido ao Princípio da Mudança, uma das três manifestações de Parabrahman que podemos perceber, Tudo está fadado a mudar (até o próprio Brahman, pois ele se manifesta e some ciclicamente), e assim, todo conjunto Tese-Antítese sempre gerará uma Síntese, o novo Uno que complementa a Sagrada Trindade. E essa Síntese, como uma nova Tese, dá início a um novo ciclo. Esses ciclos, presentes até em nossa vida diária, são exemplos da manifestação dos outros dois Princípios Intrínsecos de Parabrahman: o Princípio da Paz (Harmonia) e o Princípio do Caos Ordenado (Equilíbrio).

 

“Aquele, que sem cessar cria os mundos, é tríplice. É Brahma, o Pai; é Maya, a Mãe; é Vishnu, o Filho; Essência, Substância e Vida. Cada um encerra em si os dois restantes e todos os três são um no Inefável”.

 

Por isso é que em todos os mistérios religiosos, há a presença de um aspecto trino na Divindade:

  1. Um, Dois e Três, ou I, Hi e We do taoísmo;
  2. Brahman, Maya e Aum, ou Brahma, Vishnu e Shiva do sistema hindu;
  3. Osíris, Ísis e Hórus da mitologia/religião egípcia;
  4. Ahura-Mazdâ, Mithra (ou Asha) e Ahrimán (ou Vohumano) dos persas;
  5. Amitabha, Avalokiteshvara e Manjushri do Budismo Mahayana;
  6. Amaterasu, Tsukiyomi e Susanowo, xintoístas;
  7. Odin, Freyr e Thor da mitologia escandinava;
  8. Dagda, Dana e Lugh dos celtas;
  9. Patollo, Perkuno e Pottrimpo dos bálticos;
  10. Xamaxe, Sin e Ishtar dos sumérios;
  11. Anou, Enki e Enlil dos assírios e fenícios;
  12. Taulac, Fan e Mollac dos druidas;
  13. Júpiter, Juno e Minerva dos Romanos;
  14. Kether, Binah e Chokmah dos cabalista judeus;
  15. O Pai, o Filho e o Espírito Santo do cristianismo; e
  16. O Pai, a Santa Sabedoria (Hágia Sophia) e o Cristo Cósmico da Igreja Ortodoxa, etc..

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