NADISHODHANA PRANAYAMA:
Esse exercício limpa os Nadis, Ida e Pingala (Cf. no Capítulo II), harmonizando as estruturas físicas e sutis de nosso corpo através do equilíbrio das correntes de Prana. Em pé, ou sentado, com a espinha ereta, braços relaxados ao longo do corpo, ou repousados por sobre os joelhos, pernas semi-abertas, o praticante inicia apenas observando a respiração, com o ar entrando e saindo por ambas as narinas, deixando o tórax e os ombros imóveis como na respiração profunda. Então, depois de algum tempo de observação, posiciona-se a mão direita de forma que o dedo indicador toque o ponto entra as sobrancelhas (sexto Chakra – Cf. no capítulo anterior) e o anular toque a ponta do nariz. Assim posicionado, inspira-se com vagar pela narina esquerda, após fechar a narina direita com o polegar, fecha-se a narina esquerda com o dedo mínimo e expira-se pela direita. Então se inspira pela direita, fecha-se a mesma com o polegar e expira-se pela narina esquerda.
Segue-se alternadamente de 8 a 30 vezes, de forma silenciosa e agradável, utilizando um ritmo “inspiração:pausa:expiração:pausa” na proporção 1:1:1:0, podendo ser executado a qualquer hora do dia. Com a prática diária, pode-se passar para 1:2:2:0 ou 1:4:2:0.
Uma variante da mesma técnica, conhecida como anuloma pranayama, assume a mesma posição e inicia a inspiração, concentradamente, com ambas as narinas e expira-se, sem pausa respiratória além da normalmente existente, lentamente pela narina esquerda, após a obliteração da narina direita com o polegar. Volta-se a inspirar por ambas as narinas e expira-se pela narina direita, após a obliteração da narina esquerda com o dedo mínimo. Uma terceira variante faz a inspiração alternada nas narinas e a exalação simultânea por ambas, conhecida como pratiloma pranayama.
SIMHASANA PRANAYAMA
Nesse exercício as amígdalas têm sua irrigação sangüínea aumentada e a faringe e a laringe suas musculaturas tonificadas. De pé ou sentado sobre os tornozelos, se colocam as mãos ao longo do corpo, ou acima dos joelhos com a palma voltada para baixo, e se inicia uma respiração profunda com ambas as narinas. Sem pausa respiratória além da normalmente existente, põe-se a língua totalmente para fora, abre-se bem a boca, contraindo toda a musculatura do corpo principalmente as da face e do pescoço, e expira-se pela boca, sentindo a passagem de ar pela faringe. Geralmente o fato de se colocar a língua demasiadamente para fora da boca, junto com o fato do expirar se fazer pela boca, traz uma sensação de náuseas, que pode progredir para um vômito esbranquiçado de toxinas sutis materializadas (vômica).
UJJAYI PRANAYAMA
Nesse exercício se estimula principalmente o Chakra laríngeo e suas glândulas associadas (tireóide e paratireóides) e se acalma a mente e o sistema nervoso central. Nele se assume a mesma posição e técnica da respiração profunda, já descrita, com a diferença de que se inicia a respiração fechando parcialmente a glote de forma que se produz um som na garganta tanto na inspiração quanto na expiração.
VILOMA PRANAYAMA
É um exercício em que a inspiração se faz em etapas intercaladas por pausas inspiratórias. Inicia-se a respiração por uma expiração completa seguida por uma inspiração abdominal baixa (região hipogástrica). Após uma pausa, continua-se a inspiração com a parte média do abdome (região epigástrica) seguida de uma nova pausa. Continua-se inspirando com a região torácica inferior, seguida de uma nova pausa, até concluir-se a inspiração com a parte superior do tórax. Então se expira suavemente como em ujjayi pranayama. Esse exercício é útil para pessoas com hipotensão arterial. Uma outra variante utiliza as pausas durante a expiração, iniciando-se por uma expiração torácica alta e terminando-se por uma expiração abdominal baixa. Esse último é útil para hipertensos.
BHASTRIKA PRANAYAMA
Esse exercício tem uma função purificadora física, pois limpa os condutos respiratórios. Inicia-se respirando normalmente, sem manipulação, e depois de algum tempo vai-se aumentando a freqüência respiratória, inspirando e expirando cada vez mais rapidamente, usando-se apenas o abdome e mantendo-se o tórax e os ombros imóveis.
A tradição japonesa ensina um exercício respiratório semelhante ao Bhastrika Pranayama, que purifica os nossos corpos, o físico e os sutis, e pode até materializar impurezas na forma de secreções lacrimais, nasais e vômicas (secreções esbranquiçadas e espessas eliminadas pela boca, à semelhança dos vômitos). Esse exercício consiste em, rapidamente e incessantemente, inspirar e expirar pelo nariz durante certo tempo e mudar, sucessivamente, para inspirar pelo nariz e expirar pela boca, inspirar pela boca e expirar pelo nariz e inspirar e expirar pela boca.
A tradição taoísta 27:125 também ensina um exercício semelhante, mas similar à respiração ofegante dos cachorros, com a boca aberta e a língua exageradamente para fora. Esse exercício deve ser feito diariamente, de preferência pela manhã após os exercícios físicos matinais, antes do nascer do sol, inicialmente durante quatro a seis minutos. Induz a alterações físicas (alcalose respiratória) e sutis (elimina impurezas sutis) e prepara, extraordinariamente, a mente à prática meditativa. O tempo de meditação, após esse exercício, deve ser cinco vezes o tempo do exercício, para acalmar e revigorar o organismo.
Outro exercício respiratório taoísta, presente também no mundo hindu, visa expelir todo o ar “velho”, presente nos pulmões. Para isso, de pé, após uma inspiração normal, inclina-se para frente enquanto se expira todo o ar dos pulmões. Pode-se colocar as mãos sobre o abdome, pressionando-o, ou sobre os joelhos, contraindo vigorosamente a musculatura abdominal, principalmente na região superior do abdome. Deve-se manter essa posição até não sair mais nenhum ar. Então se inspira profundamente, enchendo todo o abdome (ação diafragmática) e em seguida todo o tórax (ação da musculatura intercostal e cervical) para em seguida se repetir a expiração forçada. Deve-se fazer isso no mínimo por três vezes, pela manhã.
A tradição taoísta define dois tipos de respiração: a pré-natal e a pós-natal 27:67. Enquanto essa é a respiração pulmonar que conhecemos, aquela não utiliza os pulmões, pois antes de nascer o embrião recebe o oxigênio pelo seu abdome, através do cordão umbilical. E é oculta no abdome que a respiração pré-natal permanece, na maioria dos casos, por toda a vida. Para o taoísmo, a respiração abdominal é a chave para unir as duas respirações, pois a respiração pré-natal humana é um fluxo de Ch’i, que vem do Tan-t’ien (ponto 3,5 cm abaixo do umbigo) em direção ao umbigo, em todas as inspirações. Assim quando inspiramos e levamos Ch’i do ar ao umbigo ele se mistura com o Ch’i proveniente do Tan-t’ien. A morte natural é ocasionada pela extinção do Ch’i pessoal (a Kundalini dos hindus) e cessação da respiração pré-natal.
Quando se atinge um elevado estado de espiritualização, um estado conhecido como respiração fetal ocorre. Nele se é capaz de respirar sem movimentos respiratórios. Transcende-se o pensamento consciente e atinge-se um estado conhecido pelos taoístas como Grande Imobilidade (o Samadhi hindu) 27:68. Vejamos alguns tipos de respiração da prática taoísta:
RESPIRAÇÃO INTERNA 27:96
Praticada em pé, com os joelhos levemente flexionados, ou sentado, consiste em inspirar lentamente com o diafragma, enquanto se elevam os braços anteriormente (até a altura dos ombros), se retificam os joelhos e se mentaliza o Ch’i subindo do Tan-t’ien ao plexo solar (a sede do Fogo ou Li). Sem pausa inspiratória se prossegue expirando, enquanto se flexionam novamente os joelhos, se abaixam os braços e se concentra mentalmente na descida do Ch’i do plexo solar a um ponto 7,5 cm abaixo do umbigo, o K’an ou Ch’i-hai (“Mar de respiração”), que corresponde ao segundo Chakra dos hindus.
Como forma de purificação, esse exercício deve ser repetido inúmeras vezes para refinar o Ch’i e prepará-lo para a próxima etapa de purificação, onde o Ch’i, pela concentração mental, parte do Tan-t’ien, circula pelos oito canais sutis (Cf. no capítulo anterior) e pelos 12 centros energéticos (os Chakras principais da filosofia hindu), e retorna ao Tan-t’ien. Àquele primeiro passo a filosofia taoísta dá o nome de Circulação Celeste Menor e a esse último o nome de Circulação Celeste Maior.
RESPIRAÇÃO TAN-T’IEN UMBIGO 27:71
É uma variação da técnica anterior que pode ser praticada em pé, sentado, caminhando ou deitado, em qualquer local e quantas vezes se desejar. Inspira-se lentamente pelas narinas, usando a mente para levar o ar ao umbigo e o Ch’i do Tan-t’ien também ao umbigo. Prossegue-se mentalizando a descida do Ch’i de volta ao Tan-t’ien e retendo-o nesse ponto por um minuto ou mais, durante a pausa inspiratória. Expira-se lentamente pelas narinas, relaxando todo o corpo. Então se inspira, novamente pelas narinas, levando com a mente o Ch’i do Tan-t’ien para baixo, até o períneo e daí ascendendo pela coluna vertebral (pelo canal Tu Mo) até o topo da cabeça, de onde desce até a boca. Se houver salivação (materialização de Ch’i que o taoísmo chama de “Vinho da Longevidade” – I Ching X) deve-se engoli-la, fazendo-a retornar ao abdome (ao Tan-t’ien). Então se expira pelas narinas lentamente, e reinicia-se um novo ciclo. Após alguns minutos se sente o corpo quente e relaxado.
RESPIRAÇÃO CÉREBRO-RINS 27:72
É outra variante que inverte o sentido do fluxo de Ch’i. Ao inspirar-se, se mentaliza a subida do Ch’i, pelo canal Jen Mo, na linha média anterior, até chegar ao topo da cabeça. Em seguida se expira, levando o fluxo, pelo Tu Mo, até a região lombar, quando então se inspira novamente, trazendo de volta o Ch’i ao topo da cabeça e daí ao nariz, por onde se solta o ar.
RESPIRAÇÃO PARA PRODUZIR ENERGIA SEXUAL 27:173
Sentado na borda de uma cadeira, à altura do joelho, com os pés bem plantados no chão deve-se inspirar profundamente pelas narinas, levando o ar à região púbica. Então se inclina para frente, com a espinha ereta, enquanto se expira lentamente pelas narinas, mentalizando-se a energia indo ao períneo. Pós uma breve pausa, volta-se à posição inicial enquanto se inspira lentamente pelas narinas. Deve-se fazer esse exercício até 12 vezes e se inverte a ordem inspiração/expiração (se inclina inspirando e volta expirando). Com a prática, pode-se aumentar para 18 ou 24 repetições. No momento da expiração, a contração da musculatura perineal ajuda a produção de energia sexual. Esse exercício traz uma sensação de calor no períneo.
Além do efeito no Sistema Nervoso Autônomo, estimulando o parassimpático, e do efeito conseqüente no sistema endócrino, quando se respira conscientemente usando o diafragma, como músculo principal da respiração, se está exercitando a presença da consciência no momento presente. Não deixa de ser um exercício meditativo que exercita a atenção num único ponto: o inspirar e o expirar (Cf. adiante em MEDITAÇÃO/CONTEMPLAÇÃO), mas os exercícios respiratórios são mais do que um exercício para a mente, suas alterações benéficas na saúde (física, emocional, mental e espiritual) se fazem perceber, com o passar do tempo, de forma evidente.
Respiração, relaxamento muscular e meditação estão invariavelmente unidos, mas quando se lança mão dos pranayamas, a mentalização do trajeto do ar (Prana) através dos canais sutis dos corpos do homem, um salto de qualidade é obtido. Embora todos esses exercícios respiratórios sejam importantes na limpeza geral do corpo físico e dos corpos sutis do ser humano, a meta é alcançar a Bem-aventurança da ausência de respiração:
“O estado consciente do homem associa-se à percepção do corpo e da respiração. O estado subconsciente, ativo durante o sono, é associado à separação mental temporária do corpo e da respiração. O estado superconsciente é a liberdade da ilusão de que a ‘existência’ depende do corpo e da respiração” 101:528.
Paramahansa Yogananda (1.893-1.952)