O Sistema Nervoso Central

“O córtex cerebral, apesar de sua elevada posição na hierarquia do sistema nervoso, é incapaz de funcionar por si próprio de maneira consciente”  57:45.

Prof. Dr. Ângelo Machado – neuroanatomista

 

Esse sistema nervoso humano, o gerente executivo do corpo físico, pode ser dividido num sistema nervoso da vida de relação (o sistema nervoso somático) e num sistema nervoso da vida interna “vegetativa” (o sistema nervoso visceral). Enquanto o sistema nervoso somático rege a nossa relação com o meio-ambiente, principalmente o deslocar-se e o defender-se, o sistema nervoso visceral integra as atividades de nossas vísceras, mantendo a harmonia de nosso meio interno (homeostase).

Ambos possuem sistemas de células receptoras de estímulos (componente aferente), que levam mensagens para o SNC, e células condutoras de ordens e mensagens do SNC para tecidos e órgãos (componente eferente). O componente eferente do sistema nervoso visceral é conhecido como Sistema Nervoso Autônomo (SNA).

Uma parte funcional do SNC, a qual denomino de sistema nervoso cérebro-mental, presente por todo o cérebro (córtex cerebral de ambos os hemisférios, núcleos da base e fibras de associação e projeção), é responsável pelos processos de raciocínio, pensamento lógico e subjetivo e processos de associação de experiências vividas com memórias registradas evocadas (memórias recentes e remotas), gerando condicionamentos.

Já o sistema nervoso cérebro-emocional (sistema límbico, área pré-frontal, hipotálamo, tálamo e tronco cerebral), denominação que dou à parte funcional relacionada com as emoções, está também relacionado com os processos instintivos (motivacionais) primários (satisfação da fome, da sede e sexual), com o SNA e com o sistema nervoso somático. É fácil de se observar essas relações, pois o fenômeno emocional apresenta um componente subjetivo central (a emoção propriamente dita) e um componente objetivo periférico o qual altera o padrão da atividade motora (choro, alterações fisionômicas e contrações musculares, etc.) pelo sistema nervoso somático e o funcionamento visceral (taquicardia, taquipnéia e alterações no peristaltismo, etc.) pelo SNA.

Esses sistemas, divididos assim por motivos didáticos, são um todo indivisível, com inter-relações múltiplas. Seu funcionamento integrado pode ser sumariado da seguinte forma: estímulos “externos” ao corpo geram sinais elétricos que viajam ao SNC, por vias diversas, até chegar ao cérebro. No cérebro, esses sinais elétricos são “transformados em sensações” que ele compara com os instintos básicos de sobrevivência e com as memórias de experiências anteriores, para decidir pelas ações mais convenientes de resposta ao estímulo através de reações automáticas ou não.

 

1. O CÉREBRO

O cérebro, através de conexões em todo o restante do SNC, está envolvido em todas as atividades neurais. Era considerado, basicamente, um órgão que transmitia sinais elétricos de uma célula nervosa para a seguinte. Para isso, possui fibras de projeção e fibras de associação. As fibras de projeção levam impulsos eferentes do córtex a todos os órgãos, músculos e tecidos, e trazem toda a sensibilidade aferente do organismo ao córtex. Já as fibras de associação interligam áreas corticais, com o intuito de interpretar todos os sinais aferentes que chegam e, desse modo, estão envolvidas com as atividades psíquicas superiores de memória, raciocínio lógico e com o pensamento abstrato e simbólico (Cf. adiante quando tratarmos do sistema nervoso mental).

Todas as áreas corticais têm conexão com uma importante região do tronco cerebral, a formação reticular, cuja ação ativadora se exerce sobre todo o córtex. Porém, à medida que sua complexidade se mostrava ante aos olhos perplexos da ciência, o cérebro passou a ser visto mais como uma glândula neuroquímica, e passou-se a dar mais atenção à sua natureza energético-informativa que se assemelha mais a um sistema holográfico energético-informativo cujas partes se estendem desde o interior dos neurônios até o interior de todas as células do corpo.

Enfim, anatomicamente o cérebro se divide em telencéfalo e diencéfalo. Nesse último se situam o hipotálamo, o tálamo (direito e esquerdo) e o epitálamo (onde encontramos a glândula pineal). Naquele primeiro, o telencéfalo, encontramos os hemisférios cerebrais (direito e esquerdo), cujo córtex possui cerca de 15 a 20 bilhões de neurônios , o corpo caloso (principal estrutura que une os dois hemisférios, composta de cerca de 200 mil axônios – SCIAM EE 4:14), algumas estruturas do sistema límbico (giro do cíngulo, giro para-hipocampal, hipocampo e o corpo amigdalóide), etc.. 33:134

 

2. O DIENCÉFALO

O diencéfalo divide-se em tálamo, hipotálamo e epitálamo. O tálamo é um agregado de núcleos com funções diversas. Participa da distribuição de toda a sensibilidade aferente às áreas específicas do córtex. Tem relações com a motricidade, com o comportamento emocional (pelas suas conexões com o sistema límbico e área pré-frontal) e com a ativação do córtex (pelas suas conexões com o sistema ativador reticular ascendente – Cf. adiante).

O hipotálamo é a principal área do SNC, responsável pela homeostase. Regula o SNA, direta e indiretamente (Cf. adiante), comanda o sistema endócrino (através da hipófise), influencia nos instintos de sobrevivência (fome, sede e sexo) e regula a temperatura corporal, o comportamento emocional, a vigília (reforça a ação da formação reticular – Cf. adiante) e o ciclo circadiano.

A pineal, situada no epitálamo, possui um fluxo sangüíneo superado apenas pelo fluxo renal e sua fisiologia apenas começa a ser desvendada. Atualmente sabe-se apenas que a luz age sobre a pineal inibindo a secreção do hormônio melatonina. Esse hormônio além de um efeito inibidor sobre as gônadas, sincroniza os vários ritmos circadianos do organismo com o ciclo dia/noite. O efeito da luz, na pineal, se faz através de seu estímulo na retina, transmitido até o hipotálamo e desse, através do SNA, à pineal, inibindo-a. As alterações diárias da melatonina, com seu pico se situando durante a noite, agem em receptores do próprio hipotálamo, que se encarregam de sincronizar o ciclo vigília/sono do corpo e de outros hormônios. Outra recente função atribuída à pineal é a sua associação com o estresse e com a atividade imunológica.

 

3. O CEREBELO

Até recentemente, os cientistas afirmavam que sua função era exclusivamente motora, trabalhando sempre em nível inconsciente e involuntário. Mas descobertas recentes, a partir de 1.989, deram inúmeras outras funções ao cerebelo, inclusive a sua não necessidade.

Suas funções motoras clássicas podem ser assim descritas: mantém o equilíbrio e a postura, controla o tônus muscular e os movimentos voluntários (planeja o movimento, junto com áreas de associação do córtex cerebral, e participa de seu controle, depois de iniciado, corrigindo-o se necessário). Participa também no processo de aprendizagem motora de movimentos repetitivos, de forma que eles passam a ser realizados cada vez mais rápidos e com menos erros. Lesões em sua estrutura podem levar à incoordenação dos movimentos, perda do equilíbrio e diminuição do tônus da musculatura esquelética.

Em 1.989, Richard B. Ivry observou que pacientes com lesões cerebelares eram incapazes de avaliar com precisão a duração de um som específico ou o intervalo de tempo entre dois sons (SCIAM 16:68). Outros déficits, não motores, secundários a lesões cerebelares foram observados posteriormente: menor acuidade na distinção de tons sonoros, erros em testes de detecção de presença, velocidade e direção de padrões móveis, dificuldade em controlar as emoções, ou achar padrões repetitivos em imagens, etc.. Estudos recentes sugerem que ele pode estar envolvido na memória de trabalho, na atenção, planejamento e organização temporal (agendamento) – SCIAM 16:70.

Atualmente, a ciência vê o cerebelo, normalmente ativo durante processos sensoriais como a audição, olfato, sede, fome, consciência dos movimentos corporais e percepção da dor, como participante na coordenação da aquisição de informação sensorial pelo encéfalo. Funcionaria como estrutura de apoio para o resto do encéfalo, monitorando a entrada de dados sensoriais e efetuando pequenos ajustes na maneira como essa informação é obtida, refinando-a.

No papel de estrutura de apoio, ele não colaboraria diretamente nas funções a ele atribuídas, mas estaria envolvido numa função geral e sutil de suporte. Isso explicaria o fato observado recentemente que indivíduos que tiveram remoção total do cerebelo, que causaram desordens motoras e sensitivas de início, recuperaram consideravelmente suas funções normais, após considerável tempo (SCIAM 16:73).

 

4. O TRONCO ENCEFÁLICO

No tronco encefálico, a parte do SNC mais resistente à falta de oxigênio e glicose, uma importante rede de fibras e corpos de neurônios está presente, sendo conhecida como formação reticular, a qual será descrita mais adiante. Além disso, nele está a origem de dez dos doze nervos cranianos, os quais são responsáveis pela motricidade e sensibilidade da face, da boca e dos olhos, pela secreção das glândulas exócrinas da cabeça (salivares e lacrimais) e pela mastigação. O principal nervo eferente parassimpático, o vago, também tem sua origem no tronco cerebral.

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